A COLEÇÃO MASTOZOOLÓGICA DO MUSEU GOELDI

Suely A. Marques-Aguiar¹

Gilberto F. S. Aguiar²

Conhecer a composição e estrutura de um determinado ambiente natural constitui condição sine qua non para que cuidados de preservação sejam definidos e aplicados, visando a protegê-lo, garantindo-se a conservação de sua diversidade de flora e fauna. Algo como atender à premissa de "inventariar para conservar". E inventário, em ciências naturais, firma-se através de acervos e coleções representativas de um determinado espaço geográfico.

A missão de "produzir e difundir conhecimentos e acervos científicos sobre sistemas naturais e socioculturais relacionados à Amazônia" talvez seja, antes que causa, a conseqüência natural da mais que centenária atuação do Museu Paraense Emílio Goeldi, pela criação e enriquecimento de suas coleções científicas. As coleções se tornaram pilastra do préstimo institucional à ciência e à humanidade.

Os esforços pioneiros que viabilizaram a criação e enriquecimento das coleções zoológicas do Museu remontam ainda ao final do século XIX, em particular através das contribuições do naturalista suíço que emprestaria seu próprio nome à instituição. Em 1893, Goeldi publica "Os Mamíferos do Brasil", ao tempo em que se empreendem coletas seriadas de espécimes dos mais diferentes táxons animais, entre vertebrados e invertebrados. Em 1904, ao lado de Gottfried Hagmann, edita um "pródromo de um catálogo crítico e comentado da coleção de mamíferos no Museu do Pará (1894-1903)". Não se pode esquecer o nome de Hermann Meerwarth e, muito depois (1945), a fabulosa contribuição de Eládio Lima com sua obra referencial sobre primatas.

De consulta obrigatória no desenvolver de pesquisas sobre sistemática, biogeografia, evolução e dinâmica populacional de mamíferos neotropicais, a coleção mastozoólogica do Museu Goeldi já reúne mais de 30 mil peças. No Brasil, para mamíferos em geral, é somente superada pela do Museu Nacional, no Rio de Janeiro (cerca de 90 mil peças), e pela do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (cerca de 50 mil). É das maiores do mundo em mamíferos da Amazônia.

A ampliação quali-quantitativa se realizou de maneira descontínua, em parte devido à inexistência ou restrita atuação de mastozoólogos e à limitação de investimentos, em governos passados, nesta subárea do conhecimento. Nos últimos vinte anos, com a crescente demanda por inventários e estudos de impacto ambiental, a incorporação e atuação de jovens mastozoólogos e intensivos esforços de conservação dos ecossistemas amazônicos, vimos o número de peças triplicar. Há excelentes perspectivas de um crescimento ainda maior nos próximos dez anos.

Vários empreendimentos contribuíram para este especial incremento mais recentemente. O Projeto Grande Carajás, a construção da UHE de Tucuruí, o Polonoroeste (Rondônia e Mato Grosso) e a criação da Estação Científica Ferreira Penna (Caxiuanã) são alguns deles. Somem-se coletas diversas, p.e. uma avaliação ecológica rápida no Amapá, e doações de órgãos públicos, p.e. o Instituto Evandro Chagas (áreas na extensão da rodovia Transamazônica, Trombetas, Tapajós, Amapá), Centro Nacional de Primatas (localidades diversas) e Inpa (área do Juruá), além de doações esporádicas, em menores quantidades mas igualmente valiosas. Nos últimos cinco anos se incorporaram também centenas de espécimes originários de localidades as mais diversas no estado do Pará (ilhas do Marajó e Cotijuba, Altamira e Vitória do Xingu, Serra das Andorinhas, Belém e arredores) e de coletas isoladas no Maranhão e Tocantins.

Abrigada em salas do Pavilhão G. Hagmann, no campus, a coleção compreende representantes de todas as ordens já registradas na Amazônia, com predominância de Chiroptera, Rodentia e Primates. Há peças antigas de animais ameaçados, como onça-pintada (Panthera onca) e peixe-boi (Trichechus inunguis). A mais antiga é de um Molossus molossus (morcego insetívoro) coletado em 1894 no parque zoobotânico por um funcionário do próprio Museu. Admite-se a incorporação de espécies não amazônicas, mas preferencialmente dos neotrópicos.

Temos duas categorias de meios de conservação: meio seco (peles taxidermizadas, crânios e, em menor quantidade, ossatura pós-craniana) e meio líquido ou úmido (álcool). No meio líquido predominam quirópteros, grupo muito estudado em decorrência de sua grande riqueza e diversidade, favorecendo a realização de estudos sistemáticos que servem de apoio no delineamento de programas de conservação. As demais ordens concentram-se no meio seco.

São comuns as visitas de interessados provenientes de todas as partes do mundo e de entidades, principalmente de Belém, em demanda de assistência técnico-científica. Destaquem-se Embrapa, Instituto Evandro Chagas, Sesma, Sespa e Escola-Bosque.

No momento a coleção mastozoológica do Museu é objeto de uma reordenação sistemática de suas peças. São medidas operacionais em quatro eixos: (1) recuperação e conservação; (2) revisão e confirmação de dados, mediante averiguação de peças, notas nos livros de registros e cadernos de campo; (3) confirmação da atribuição de táxons e atualização de nomenclatura; (4) informatização.

Mapa de distribuição dos pontos de coleta encontra-se disponível na internet (www.museu-goeldi.br/pesquisa/colecoes/zoologia.htm).

¹ Pesquisadora Titular da Coordenação de Zoologia do Museu Paraense Emílio Goeldi.
² Pesquisador Adjunto da Coordenação de Ciências Humanas do Museu Paraense Emílio Goeldi.