PROJETO BUSCA MELHORIA NA QUALIDADE DE VIDA DE PESCADORES

Atuando há dez anos junto a comunidades pesqueiras, o Renas provou que a pesquisa e o saber popular podem caminhar juntos na solução de problemas

Teoria e prática. Esse dilema corrente no meio científico vem sendo quebrado por pesquisadores que, cada vez mais, se preocupam em transformar suas idéias em ações que tragam algum benefício para a sociedade. Um desses exemplos é o projeto Renas que completa dez anos se dedicando a estudar e melhorar a vida dos pescadores.

TRANSFORMAÇÃO..................................................................................................

Coordenado pela antropóloga do Museu Paraense Emílio Goeldi, Lourdes Furtado, o programa Renas "Recursos Naturais e Antropologia das Sociedades Marítimas, Ribeirinhas e Estuarinas da Amazônia – organização social, desenvolvimento e sustentabilidade em comunidades pesqueiras na Amazônia/Renas", é resultado de projetos iniciados em 1969, que estudavam as formas de organização social dos pescadores artesanais e como elas se transformavam com o passar do tempo. Os projetos se concentravam no nordeste paraense, na chamada zona do salgado, área banhada pelo Oceano Atlântico e se limitavam à parte teórica, ou seja, levantamento de dados e geração de conhecimento.

Com o aprofundamento dos estudos e as visitas de campo, os pesquisadores se deram conta das diferenças entre as várias comunidades, tanto no aspecto sócio-cultural quanto em relação ao meio ambiente. Perceberam que a pesca industrial, que estava sendo introduzida, acarretava grandes problemas como a agressão ao meio ambiente, o desemprego, o êxodo, enfim, o empobrecimento e a desagregação das comunidades e a transformação de vila de pescadores em pontos turísticos e de lazer de forma desordenada. Além dos impactos ambientais, as vilas de pescadores foram invadidas pela especulação imobiliária, transformando-se em pontos turísticos e de lazer. A grande dificuldade era então aliar teoria e prática para minimizar os impactos entre a pesca artesanal e nova atividade produtiva: a pesca em larga escala.

Dos 80 mil pescadores no Pará, 60 mil ainda eram adeptos das maneiras tradicionais de pescar, oriundas da cultura indígena, e não estavam preparados para fazer frente a grande demanda do mercado consumidor. Como explica Lourdes Furtado, "as populações pesqueiras transitam entre a ancestralidade indígena e a modernidade do mercado".

Em 1991, surgiu o Renas, um projeto multidisciplinar que tinha como desafio dar uma resposta concreta aos problemas detectados pelos pesquisadores. O Renas envolveu instituições governamentais e a sociedade civil para encontrar soluções. Nesse processo, as comunidades pesqueiras desempenharam um papel importante, pois além do conhecimento tradicional que detinham, necessário para subsidiar as políticas do setor, tiveram que se organizar politicamente para sobreviver.

Coube ao projeto levantar a problemática e capacitar os pescadores para, junto com o governo, discutir e implementar atividades que fossem sustentáveis para o meio ambiente e as comunidades locais.

DESAFIOS..............................................................

Nestes dez anos, o Renas ampliou suas atividades e áreas de atuação. Hoje, está presente em comunidades pesqueiras da região do Médio Amazonas, nos municípios de Óbidos, Santarém, Monte Alegre e Abaetetuba (oeste paraense), e na zona do salgado, compreendendo os municípios de Marapanim, São Caetano de Odivelas, Vigia, Maracanã e Bragança (nordeste do estado). Essas áreas incluem 3 ecossistemas diferentes: a costa atlântica, águas fluviais e estuarinas.
A equipe do projeto, formada por pesquisadores, bolsistas e estagiários, está desenvolvendo pesquisas nas áreas de antropologia social, arqueologia pré-histórica, sociologia, geomorfologia (estudo do relevo) e botânica. Além das atividades voltadas para a área acadêmica como orientação a mestrandos e bolsistas, pesquisas, estágio e elaboração de projetos, o Renas tem promovido várias atividades voltadas para a

Pescadores artesanais sofrem com a pesca industrial que provoca degradação ambiental e desagrega comunidades

capacitação das comunidades. São cursos, oficinas, palestras, seminários e exposições que ajudam os pescadores a gerenciar os recursos naturais e ter poder de decisão junto ao governo. "Os maiores desafios do projeto é formular agendas estratégicas fundadas na realidade e capacitar as comunidades para a auto-gestão", explica a idealizadora do Renas.

Em 2002, o Renas entra numa nova fase. O projeto pretende expandir as atividades para a região do Marajó e reforçar o caráter interdisciplinar das pesquisas e ações. A proposta é formar uma equipe maior para trabalhar em áreas como saúde e saneamento.

O projeto deve continuar a receber recursos da Ong canadense International Development Research Center (IDRC/CRDI), que desde 1995 financia o Renas e, periodicamente, avalia as metas e ações implementadas. Pelos resultados obtidos, o Renas ainda deve ter vida longa. As instituições envolvidas e, principalmente, as comunidades de pescadores reconhecem a importância do projeto Renas que, ao contrário de grande número de pesquisas que nunca saíram do papel, transpôs o isolamento científico e soube remar.

O projeto Renas luta para preservar o modo de vida das populações que vivem da pesca e também os recursos naturais

Fotos: Acervo RENAS