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Entrevista com Dr. Nilson Gabbas Junior, novo diretor do Museu Agência Museu Goeldi - O que lhe motivou a se candidatar ao cargo de Diretor do Museu Goeldi? Por incrível que pareça, o que me motivou foi o desafio de poder ser gestor de uma instituição de pesquisa na Amazônia. Ser gestor hoje em dia não é uma coisa fácil, tanto que a Ima, por decisão própria, não quis se recandidatar como gestora do Museu. Mas eu encontrei no meu trabalho, ao longo dos 4 anos em frente da Coordenação de Pesquisa e Pós Graduação, o conhecimento dos desafios da gestão. Eu pude conhecer várias pessoas e funções, conquistar espaços institucionais, conhecer esses espaços. E isso me motivou a me candidatar à direção do Museu Goeldi. O desafio está ai. Não é fácil, mas eu sou uma pessoa movida a desafios. Nunca me imaginei sendo diretor do Museu, mas, como tudo na vida, as coisas acontecem. Às vezes, você já está em alto mar e, quando vê, já embarcou e você tem que ir, aproveitar o melhor possível das relações, das pessoas para aprender a melhor forma de resolver os problemas de gestão e da região de maneira geral. AGM - O quê, na sua formação, representa um diferencial para a instituição? Bem, eu sou jornalista de profissão. Minha graduação é em Comunicação Social, com especialização em jornalismo. Mas, depois disso, fiz mestrado, doutorado e pós-doutorado em lingüística. Meu trabalho é com línguas indígenas, descrição e conhecimento de línguas indígenas na Amazônia. E isso já foi um diferencial para que eu viesse para Amazônia. Eu sou natural de Campinas, e lá não tem uma instituição que lide com línguas indígenas amazônicas. E o Museu Goeldi é esse lugar. Naturalmente com seus altos e baixos. Nas décadas de 1960 e 1970, tivemos um pico de estudos, sucedido por um período de baixa produtividade. Então, o Denny Moore [pesquisador da Coordenação de Ciências Humanas/Linguística] me pediu que eu viesse para o Museu assim que eu terminasse o meu mestrado. Eu fiz do Museu a minha casa, e esse foi o diferencial que me trouxe pra cá e ajudou na minha formação, o que contribuiu para entrar em contato com os problemas da Amazônia de uma maneira geral. De lá pra cá, venho exercendo funções diferenciadas dentro da instituição, como Coordenador de Ciências Humanas, e depois na Coordenação de Pesquisa e Pós-graduação. Isso tem me ajudado, a partir do conhecimento adquirido, a desenvolver um potencial para auxiliar na solução dos problemas. AGM - Há um argumento dentre os estudiosos de museus, dentre eles, o Prof. Mário Chagas, de que instituições do gênero são geridas de forma a que se observem ciclos. No caso dos museus de ação no campo da história natural, em certos momentos a gestão privilegia a pesquisa, em outros, a comunicação. De que forma essa gestão conduzirá o Goeldi? Eu espero poder promover a educação em ciência, a comunicação em ciência de uma maneira muito abrangente. Ainda não sei se isso vai ser o diferencial dessa gestão, potencializar mais a comunicação do que a pesquisa. Sem a pesquisa como base, não há comunicação. Mas eu entendo que nós temos que incrementar a comunicação no Museu Goeldi. Nós passamos muito tempo sem ter uma exposição permanente, onde nós pudéssemos fazer essa comunicação, resultados em andamentos das pesquisas. A biblioteca clara Galvão está em processo de restauro. A situação é desafiadora. Se você tem espaço você tem que preencher o espaço. Tem que haver uma mobilização interna muito grande pra ocupar os centros expositivos. E não é só exposição. Comunicação em Ciência implica uma lapidação do nosso setor de educação. Nós não temos um programa de educação em ciência, nós temos que estabelecer um programa dessa ordem. Fez parte do plano gestor da Ima [Vieira] o estabelecimento de um programa de especialização em comunicação. Eu não sei se vou conseguir, mas não significa que não é uma das minhas metas. Na Amazônia, não há nenhum curso nesse sentido, e aqui há jornalistas altamente capacitados que podem se associar a jornalistas da Universidade Federal do Pará (UFPA) e elaborar um curso dessa natureza. É uma das lacunas que o Museu Goeldi tem muito potencial para desenvolver, mas esbarra justamente na questão de recursos humanos. AGM - Com quais recursos o Museu contará para ao longo de sua gestão? Quais são os montantes para cada área Gestão, Comunicação e Pesquisa? Há previsão sobre o montante de cara área? Não temos ainda uma previsão pré-estabelecida, mas com relação a recursos do Tesouro, na fala do ministro Sergio Rezende e do secretário executivo, em face da crise e da recessão não vai haver nenhum incremento no orçamento. Mas isso não é um problema. Se o congresso mantiver o orçamento tal qual foi esse ano, cerca de 10 milhões de reais, vai ser possível fazer muita coisa. O orçamento deve chegar a quase 10 milhões. e nós conseguimos captar mais uns 10 ou 15 milhões através de projetos. Os recursos que nós temos de captação extra vai depender muito da relação do Ministério da Educação e Ministério de Ciência e Tecnologia com o Tribunal de Contas da União. E também do fôlego da Fadesp [Fundação de Amparo de Desenvolvimento da Pesquisa] de poder receber e gerenciar esses recursos. Internamente vai acontecer o que tem acontecido historicamente. Nós utilizamos cerca de 60 % do recurso para pagamento terceirizado e serviços fixos (água, telefonia, luz). Para pesquisa vai muito pouco. Em um universo de 10 milhões, foi concedido cerca de 120 mil para pesquisa, e é muito pouco. Esse recurso é transformado em apoio de eventos, ida a campo, apresentação de trabalhos em congresso. Espero, minimamente, mudar isso. Para a Comunicação, o Nelson [Sanjad, Coordenador de Comunicação e Extensão] já me pediu entre 150 a 200 mil reais para fazer, pelo menos, uma grande exposição, ou duas exposições menores ou itinerantes. Esse ano nós usamos muito dos recursos em obras. Espero que para as grandes obras de 2010 consigamos apoio específico que não saia do nosso orçamento o pagamento. AGM - A formação de recursos humanos é necessidade de esforço contínuo no mundo científico e mais ainda em instituições da Amazônia. Como isso será tratado na sua gestão? Sempre fomos uma Instituição de referência na formação de recursos humanos. O Museu Goeldi sempre formou um bom quadro de pessoal, nos nossos diversos programas, o Clube do Pesquisador Mirim, que tem ex-paticipantes que ocupam cargos na esfera estadual. Então vai desde o Pesquisador Mirim até o Programa de Capacitação Institucional (PCI), passando pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic), passando pelo Pibic Junior [para estudantes de ensino fundamental e médio]. Ou seja, em termos de formação de recursos humanos nós estamos bem, e eu pretendo manter esse ritmo. O que acontece é que o Museu forma, mas ele mesmo não tem condição de assimilar o quadro que ele forma. Ele cede para a UFPA, para a Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), para a Universidade Estadual do Pará (UEPA), e isso não é ruim. São pessoas capacitadas que permanecem na região, mas não estão no Museu. Então, estamos perdendo recursos humanos de uma maneira muito acelerada. Eu gostaria que, dentro da capacidade que temos em formar recursos humanos, que nós pudéssemos absorver pelo menos uma parte desses recursos na instituição, o que não temos conseguido. AGM - E isso vai ser solicitado ao ministério? Esse é o primeiro item da minha pauta ao Secretário Executivo [Luis Antonio Elias, do MCT]. Segundo uma previsão feita pelo Serviço de Recursos Humanos, em quatro anos, irão se aposentar cerca de 40 funcionários. De 260 servidores vamos pra 220. Eram 350 em 1989. È um absurdo. Sem contar o aumento de demandas institucionais. Precisamos agir. Não tem nenhum pesquisador 1 do CNPq no Museu. AGM - A relação Museu-Sociedade; Ciência-Sociedade, é crucial para a manutenção de instituições geradoras de conhecimento. Como o senhor acredita essa relação pode ser melhorada na conduta do Museu Goeldi? Essa pergunta se relaciona à resposta que eu dei com relação aos altos e baixos, de você privilegiar ou não, de dar maior aporte de atenção à comunicação. Eu acredito que a resposta a essa pergunta está relacionada à capacidade que nós vamos ter de mobilização e de inserção, tanto local, quanto regional, nacional e internacional de nossas atividades de comunicação em ciências. E atividades museais, de transição de conhecimento e tradução de conhecimento para o público em geral, quanto melhor se faz esse processo mais as pessoas se reconhecem na instituição e como parte dessa sociedade e valorizam mais nossa atividade. O que nós plantamos hoje é o que vamos colher mais tarde. |
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