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Amazônia resgata memória da pesca artesanal Cultura da pesca em Vigia (PA) é modificada a partir da modernização das embarcações e do modo de conservação do produto Qui, 04 de Março de 2010, 14h29 SÍLVIA LEÃO
BELÉM, PA – Com uma economia ligada à pesca artesanal, o município de Vigia, no sudoeste do Pará, representa o centro pesqueiro de maior importância do Estado. A frota de embarcações regionais, entre as quais vigilengas, montarias, lanchas e reboques, além de equipamentos utilizados para realizar a pesca, sofreram diversas mudanças com o tempo. A modernização do trabalho de pesca na região e a transformação dos hábitos daquela comunidade provocaram a perda do modelo de embarcações antigas, do modo como se conservava os peixes e da preservação do meio ambiente. Regiane Monteiro Alves, bolsista de Iniciação Cientifica do Emílio Goeldi, do curso de Ciências Sociais, da Universidade da Amazônia (Unama), realizou a pesquisa “Entre o tradicional e o moderno: as formas de mudança na pesca artesanal do município de Vigia”. Integrada ao Projeto Populações Tradicionais Haliêuticas – Impactos Antrópicos, Uso e Gestão da Biodiversidade em Comunidades Ribeirinhas e Costeiras da Amazônia Brasileira – Renas, a estudante elaborou a sua pesquisa com base no seu trabalho de conclusão de curso e Pibic/2008, intitulado “Situações de conflitos na pesca artesanal em Vigia de Nazaré: Uma contribuição aos estudos sobre a área costeira Amazônica”. Natural de Vigia, a bolsista do PIBIC/Museu Goeldi pretende elaborar um catálogo descritivo sobre aspectos, especificidades e significados das memórias das embarcações no âmbito da atividade haliêutica da frota do município, tendo em vista os saberes de personagens daquela comunidade. Por ter pouca documentação sobre o assunto, sentido pela estudante durante a elaboração do trabalho, o intuito de Regiane é levar, até as escolas locais, o catálogo, incentivando crianças e adolescentes a terem mais conhecimento a respeito de sua cultura e economia. Estaleiros navais Atualmente, o município de Vigia possui quatro estaleiros navais. Dois estão localizados no bairro do Arapiranga, um no Porto Salvo e um no Sol Nascente. Para realizar a pesquisa, Regiane fez a escolha do estaleiro que fica a beira do Igarapé da Rocinha, localizado no Arapiranga. Com 12 anos de atividade, lá é possível encontrar uma pequena oficina instalada no fundo de um quintal, onde se constrói embarcações variadas, como: barcos de pesca, cascos, montarias, além de trabalhar no aumento desses tipos de embarcações. A bolsista conta que a escolha desse estaleiro foi feita pela história do igarapé e dos conflitos da pesca naquele lugar. ”O Igarapé da Rocinha era um espaço de lazer e de subsistência. Por um longo período, encontrou-se abandonado. A própria população jogava lixo e aterrava o mangue. Ele era um igarapé muito importante já que cortava vários bairros do município. Com a falta de cuidados, houve um estreitamento do igarapé, deixando inclusive de circular embarcações por ali”. No entanto, a Colônia de pescadores de Vigia se organizou para revitalizar o Igarapé da Rocinha. Foi retirado todo o acúmulo de lixo, fazendo um alargamento do espaço por onde passa a água. “A Colônia de pescadores possui cerca de 2.732 associados de Vigia, tem mais de 1.200 barcos e possui quatro estaleiros no município. Foram eles os responsáveis pela mudança de consciência da população no que diz respeito à preservação do meio ambiente e da importância do igarapé para a própria subsistência dos moradores da região”. Transformações na pesca artesanal As mudanças ocorridas no setor pesqueiro se deram a partir da década de 50, quando a procura por produtos vindos do mar teve considerado aumento na comercialização. Segundo Regiane, a pesca de subsistência, sempre utilizada no município, deu espaço a uma nova forma de se fazer a pesca. “Nesse período foi que ocorreram as instalações de indústrias de pesca e fábricas de gelo, mudando a forma de conservação do pescado, antes feita com sal”. Outras mudanças apontadas por Regiane são sobre os tipos e tamanhos de barco. O aumento das embarcações sugere uma maior capacidade de armazenamento do produto durante a pesca. A bolsista relatou no trabalho sete tipos de embarcação, entre eles os cascos, os reboques e as montarias. “A montaria é pequena, sendo mais utilizada para a pesca artesanal. Pode ser a remo e a vela. Já o reboque é uma embarcação de transporte de passageiros, com a polpa e a proa larga”, explica Regiane. Ao registrar essas diferenças, a bolsista mostra as especificidades de cada embarcação. “Com o trabalho, eu queria quebrar essa idéia de que barco é tudo igual. Na sede do município, por exemplo, é possível encontrar aproximadamente 1200 barcos, de modelos diversos, a vela e a remo. Então percebo que é importante resgatar essa tradição de Vigia e registrar a memória que o povo daquela comunidade tem sobre as embarcações“. Tipos de Embarcações encontradas no Município de Vigia (*) É repórter da Agência Museu Goeldi Agência Amazônia, 5/3/2010.
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