Ciência em desenho: a exatidão em traços
Ilustração Científica - 18/12/2007 - 10:02
Ilustrações colaboram para a percepção de textos científicos
Ciência também é feita com nanquim, grafite e aquarela. Prova disso são as ilustrações científicas, imagens que acompanham o texto científico para facilitar a compreensão, geralmente publicadas em livros e revistas do gênero, monografias de conclusão de curso, dissertações de mestrado e teses de doutorado. “A função da ilustração científica é auxiliar na descrição das características da espécie que está sendo retratada”, afirma a pesquisadora Ana Prudente, da Coordenação de Zoologia (CZO) do Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG/MCT).
Ana trabalha com ilustração científica de répteis e anfíbios há cerca de quinze anos. Questionada se a ilustração científica é arte, Ana Prudente responde, taxativa, que não. “Não é um desenho artístico, e, sim, científico, de caráter informativo”, argumenta.
Elielson Rocha, funcionário da Coordenação de Botânica (CBO) do Museu Goeldi, onde trabalhou como ilustrador por aproximadamente 10 anos, partilha da mesma opinião que a pesquisadora. “O ilustrador tem que ter ciência de que esse trabalho não caracteriza arte. A obra artística é subjetiva, não exige legenda, diferente da ilustração, que geralmente vem acompanhada da descrição”, sugere.
Formado em Educação Artística, Elielson enveredou pela ilustração científica logo no primeiro ano da graduação. “Ingressei no Museu em 1989, por meio de um curso de ilustração. Trabalhei por seis anos em um projeto de levantamento de orquídeas e, depois, fui contratado como ilustrador geral da Botânica”, relata Rocha. “No final do curso, eu percebi que não era artista. Quem trabalha com ilustração tem que vê-la como ciência, não como arte. O ilustrador tem que fazer uma reprodução fiel, com as dimensões exatas”, finaliza.
Polêmicas à parte, a capacidade que um desenho científico tem de sintetizar muitas informações visuais é realmente impressionante, o que faz com que os pesquisadores optem por utilizá-lo, em vez de lançar mão da fotografia. É o caso de Ana Prudente. “A foto não seria suficiente para abarcar tudo o que eu quero mostrar”, diz ela.
Formação
Ana Prudente é autodidata em ilustração científica. A pesquisadora conta que aprendeu a ilustrar na época do mestrado, pela necessidade de enriquecer as pesquisas que vinha desenvolvendo. “Quando você compreende o que está desenhando, o resultado fica muito melhor”.
Enquanto Ana foi da pesquisa ao desenho, Elielson Rocha trilhou trajetória inversa. Depois de concluir o curso de arte, ele participou de minicursos ofertados pela CBO, foi ouvinte de disciplinas do curso de Agronomia, da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), e fez mestrado em Biologia Vegetal Tropical na Universidade Federal do Pará (UFPA). Tudo para se capacitar mais em ilustração científica na Botânica. E tanta dedicação às plantas o fez enveredar pelo caminho da pesquisa. “Sem contar que o ilustrador é pouco reconhecido na Amazônia”, completa Rocha, que está se preparando para o doutorado.
Presente
Mas o Museu Goeldi não ficou desfalcado de ilustrador com a saída de Elielson. Não por tanto tempo. Em 2004, o arquiteto Carlos Alvarez assumiu a função e passou a trabalhar com ilustração zoobotânica. Alvarez faz cerca de três ilustrações diárias, a maioria para a CBO, onde, segundo ele, a demanda é maior. Seus desenhos já estamparam a capa de uma aclamada revista científica de Botânica, denominada Brittonia. “Essas ilustrações, que foram capa, integravam um trabalho de pesquisa desenvolvido pelo Ricardo Secco, pesquisador da CBO”, explica.
Filho de Rafael Alvarez, que também ocupou o cargo de desenhista na Botânica, Carlos diz que cresceu acompanhando o trabalho do pai. “Quando eu era criança, meu pai levava papel pra eu desenhar, em vez de bolas e outros brinquedos. Ele me trazia para o Museu e eu ficava rabiscando”, lembra. “Por isso tenho mais experiência na área de Botânica. Filho de peixe, peixinho é”.
A arte como ferramenta científica
Há cerca de 30 mil anos, no período Paleolítico, também conhecido como Idade da Pedra Lascada, o homem já registrava, nas paredes das cavernas, cenas da vida cotidiana.
Mas arte e ciência só foram reconhecidas entrelaçadas nos séculos XV e XVI, à época do Renascimento, que não representou somente um movimento cultural, mas uma nova concepção de vida. A lógica divina cedeu lugar à racionalidade moderna para compreensão do mundo. Desde então, tudo deveria ser explicado pela visão do homem e pela ciência. Nessa época, a arte aliou-se ao ato de observar, conhecer, comparar e descrever os seres do mundo natural.
O italiano Leonardo da Vinci foi um expoente desse novo homem universal. Matemático, físico, pintor e escultor, ele chegou inclusive a estudar aspectos da biologia humana.
A ilustração científica desenvolveu-se à época das Grandes Navegações, com as expedições organizadas para desbravar as terras recém-descobertas. Muitos desenhistas estavam dentre os tripulantes das naus para registrar, descrever e difundir as descobertas feitas nas novas terras.
O pintor e estudioso do bioma amazônico Ernst Loshe foi quem inaugurou o século XX no campo da ilustração científica, com a publicação do Álbum de Aves Amazônicas, em 1900. Emilio Goeldi, ao assumir a direção do museu paraense, contratou Loshe para trabalhar na instituição, que é, hoje em dia, o mais antigo centro de pesquisas da Amazônia.
Muitos ilustradores são cientistas que têm vocação para a arte. Outros são artistas que gostam de ciência, como é o caso de Da Vinci. Não basta conhecer o que está sendo ilustrado, também é preciso saber escolher a melhor técnica artística para obter um bom resultado.
Antonio Fausto - Agência Museu Goeldi
Agência CT, 18/12/2007.
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