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Castanheira - uma das espécies de árvores mais longevas da Amazônia

Data: 
30/11/2016 - 12:45

Castanheira do Maranhão, do Pará, do Brasil ou da Amazônia? Todos querem ter para si esta exuberante árvore nativa do bioma amazônico, cujo fruto comestível é muito apreciado mundo afora, fazendo o deleite  de quem o saboreia. A planta tem ampla ocorrência na Pan-Amazônia, o que, segundo os etnobotânicos, pode indicar uma história de domesticação iniciada há milênios por paleoíndios. Já os ecólogos defendem a grande plasticidade de adaptação da espécie no ambiente amazônico, sobretudo nas clareiras naturais, propiciando sua ampla dispersão pela floresta.

 

Agência Museu Goeldi – Especialistas estimam que exista no bioma amazônico 390 bilhões de árvores, agrupadas em cerca de 16 mil espécies arbóreas, e neste universo verde algumas se destacam como hiperdominantes. Esse é o caso da castanheira, uma árvore com um papel ecológico e socioeconômico relevante na história da Amazônia. A castanheira foi a responsável por manter a economia dos estados do Pará e Amazonas após o declínio do ciclo da borracha. É do extrativismo da castanha que, ainda hoje, milhares de coletores e coletoras sustentam suas famílias. E, entre as características que a tornam singular, está a longevidade - já foram identificados exemplares com mais de 800 anos – e grande produção de castanhas. A majestosa castanheira é a personagem da penúltima edição da série “As Anciãs do Museu Goeldi”.

A castanheira (Bertholletia excelsa Bonpl.) é uma das árvores mais representativas da floresta amazônica. Originária das matas de terra firme, é a mais longeva (pode viver centenas de anos), a de maior crescimento em diâmetro do tronco (há registros de indivíduos com mais de 5 metros de diâmetro) e a segunda maior em altura (atinge 50-60 metros de comprimento), ficando atrás apenas dos angelins.

A planta já atraiu a atenção de cientistas famosos como Jacques Huber (1867 – 1914), Adolpho Ducke (1876 – 1959) e Paulo Cavalcante (1922 - 2006), pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi. A castanheira é uma das espécies estudadas pelo engenheiro florestal Rafael P. Salomão, também pesquisador do Museu Goeldi e um especialista na árvore, que, entre outros aspectos, destaca a capacidade de crescimento rápido – taxas anuais de até 1,5 metro de altura e 3 centímetros de diâmetro já foram registradas em vários estudos.

Essa espécie amazônica se adequa a climas diferenciados, resistindo a períodos de resfriamento, aquecimento, secagem e umedecimento. O cenário de aclimatação da castanheira para o futuro, a se manter a tendência de aquecimento global é positivo. Graças ao crescimento acelerado e à grande resistência, ela se torna ideal para a recuperação de áreas degradadas, como aquelas geradas pelas atividades de mineração.

Clique aqui para acessar o vídeo sobre a castanheira.

Debates - A discussão sobre a origem dos castanhais na Pan-Amazônia apresenta pelo menos dois pontos de vista, como esclarece Rafael P. Salomão. A ecologia explica a disseminação dos grandes castanhais por meio da dispersão de sementes por roedores e aves (sem a interferência humana), já pesquisas interdisciplinares arqueológicas e antropológicas defendem que o sucesso de sua distribuição no bioma amazônico foi feito por povos humanos pré-colombianos, que iniciaram um processo de domesticação da planta.

Estudos arqueobotânicos estimam que a espécie é cultivada na Amazônia há mais de 11 mil anos por populações de paleoíndios. Após analisar a paisagem ao redor de sítios arqueológicos, como na Serra de Carajás (PA), por exemplo, especialistas apontam que as castanheiras se encontram agregadas porque os antigos habitantes a plantavam nas clareiras, garantindo o fruto para as gerações futuras.

“Pelo viés da ecologia, entendemos que ela é uma espécie de pleno sol, então precisa de luminosidade para fazer fotossíntese e crescer até atingir o dossel da floresta. É uma árvore de grande porte que, quando morre e tomba, abre uma clareira muito grande. No chão ficam as os ouriços com as castanhas (amêndoas), que germinam e crescem com a entrada da luz, formando os castanhais de forma agregada”, explica Salomão.

Apaixonado pela beleza e estratégias da majestosa árvore, cuja copa se destaca na paisagem, Rafael P. Salomão a aponta como a mais bela espécie da Amazônia: “quando caminho em uma floresta em que ocorre a castanheira e me deparo com um exemplar de 3, 4 ou até 5 metros de diâmetro, com um fuste reto, percebo que ela é a arvore por excelência da Amazônia”, explica o pesquisador. Acesse aqui o número temático do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi – Ciências Natural sobre a castanheira.

A beleza e a majestade da castanheira também encantaram o botânico francês Aimé Jacques Alexandre Goujaud Bonpland, que descreveu a planta pela primeira vez em 1808, chamando-a de Bertholletia excelsa. Segundo o dicionário, excelso é alto, elevado, sublime, excelente, admirável e ilustre – termos que parecem se adequar como uma luva a nossa personagem.

Socioeconomia da castanha – Com o final do ciclo da borracha na bacia amazônica, que abalou a economia da região, a venda de castanhas auxiliou a manutenção das exportações nos estados do Pará e Amazonas. O Pará liderava a extração das amêndoas em função do polígono dos castanhais, concentrado na região de Marabá, no Sudeste do estado. E o Brasil era o maior exportador da iguaria amazônica, que era apreciada na Europa desde o século XVII.

Contudo, a política de incentivos fiscais do governo brasileiro na década de 1960 para a criação de pastagens destinadas à pecuária culminou com o desmatamento e destruição de boa parte do polígono das castanheiras. Apesar de muito resistente, a árvore não suporta o manejo por fogo em um período consecutivo de três anos, técnica empregada para abertura das pastagens. O polígono deu origem ao cemitério de castanheiras.

Atualmente, o maior exportador de castanha amazônica é a Bolívia. No Brasil, o estado que mais produz o fruto hoje em dia é o Acre, porém, o estado do Amazonas lidera a implantação de castanhais plantados em sistemas de manejo.

A economia da castanha também afeta diretamente a vida dos coletores (extrativistas), como explica Rafael Salomão. “Uma árvore que pode atingir 800 anos é capaz de sustentar muitas gerações de famílias de coletores , bem como  as comunidades que vivem desta atividade. É como se ela fosse uma caderneta de poupança por séculos, que pode passar de pai para filho: sem adubação, sem tratos culturais e, mesmo assim, todos os anos tem (a safra de amêndoas) num ano com safra forte e no subsequente uma mais fraca; perpetuando-se esse ciclo. A castanha tem um preço relativamente bom no mercado, por este motivo traz benefícios sociais também, pois trata-se de um produto florestal não madeireiro, ou seja, não se derruba a árvore para se ter o produto final (castanha) como quando se trata da produção de madeira serrada”, conta Rafael P. Salomão.

Além de produzir sementes comestíveis, a planta fornece madeira de ótima qualidade também; plantios na Bolívia, por exemplo, são feitos neste sentido. No passado, as fibras de sua entrecasca já foram utilizadas na calefação de barcos.

A dizimação de grandes populações de castanheiras na Amazônia, sobretudo a partir dos anos 1960, teve como uma das consequências a introdução da mesma nas listas de espécies ameaçadas de extição do Brasil e do Pará. Como medida protetiva, o corte e a exploração da castanheira em florestas primárias para a indústria madeireira foi proibida no Brasil, Bolívia e Peru.

De quem é a castanha? – Um fator curioso sobre a castanheira é a origem do nome de seus frutos. Entre os indígenas do Pará, a amêndoa era conhecida como anhaúba, mas os europeus a chamavam por outro nome: castanha-do-maranhão. Com o passar do tempo, os colonizadores portugueses a denominaram “castanha-do-brasil”.

O nome castanha-do-pará foi atribuído ao fruto quando o estado se tornou o maior exportador da iguaria. Atualmente a amêndoa é conhecida em todo mundo como “castanha-do-brasil”, designação dada pelo governo brasileiro na década de 1950. Contudo, outros países amazônicos produtores de castanha contestam a nomenclatura e sugerem o nome “castanha-da-amazônia”.

Museu Goeldi Entre as décadas de 1960 e 1980, as castanheiras plantadas no Parque Zoobotânico do Museu Goeldi tiveram acompanhamento de um grande especialista em frutos comestíveis da Amazônia, o botânico Paulo Cavalcante.

No Parque, os exemplares dessa árvore recebem um cuidado especial da equipe técnica do Setor Flora, que periodicamente fazem o controle hídrico do solo para que as castanheiras continuem se desenvolvendo, e observam sua fenologia. Os frutos que caem no período de safra são aproveitados para a complementação alimentar dos animais do Parque, mas isso só ocorre quando a equipe de biólogos é mais rápida do que as cutias que percorrem livremente toda a área do Parque Zoobotânico, pois tratando-se de dispersores naturais da espécie  são especialistas em abrir os ouriços e acessar desta forma as castanhas; como são em grande número de sementes elas acabam enterrando-as em vários locais para depois buscarem o alimento quando este se torna escasso. Todavia, muitas sementes são esquecidas pelas cutias, permitindo desta forma, a dispersão natural da espécie na mata.

As anciãs do Museu Goeldi - O projeto Viva Amazônia apresenta ao público informações sobre o bioma amazônico e os acervos do MPEG no formato de séries de reportagens multimídia.

A proposta iniciou-se em 2015 com a apresentação do acervo vivo da instituição. Já foram lançadas as séries “Viva a Fauna Livre” e “Aves e Mamíferos”. O material seriado conjuga jornalismo, vídeos, ilustrações, design e interação com o público das mídias sociais. Clique aqui e aqui para ter acesso às reportagens, vídeos, tutoriais e miniaturas das edições “Viva a Fauna Livre” e “Aves e Mamíferos”.

O projeto Viva Amazônia é desenvolvido pela Escola da Biodiversidade Amazônica (Ebio), subprojeto do INCT/Biodiversidade e Uso da Terra na Amazônia, e pelo Laboratório de Comunicação Multimídia (LabCom) do Museu Goeldi.

A série “As Anciãs do Museu Goeldi” conta com a parceria da Coordenação de Museologia do MPEG, através do projeto “A transformação da paisagem do Parque Zoobotânico durante os primeiros 50 anos de existência”, desenvolvido pela Dra. Lilian Flórez, e ainda com a colaboração do setor Flora do Parque Zoobotânico e das coordenações de Botânica e de Informação e Documentação – todos setores do Museu Goeldi.

Em dezembro deste ano a última edição da série trará histórias sobre a coleção de palmeiras do Museu Goeldi. Acompanhe.

 

Texto: Joice Santos, Rafael Salomão e Mayara Maciel

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