Perspectivas científicas no estudo das interações entre solo, vegetação e clima

Marcos Heil apresenta no MPEG dados sobre o recrescimento da floresta sob stress nutricional, acerta parceria para testar o modelo acoplado atmosfera-biosfera CCM3-IBIS e faz um alerta sobre as condições de reflorestamento

Agência Museu Goeldi – Com o objetivo de investigar como as retroalimentações do clima e da disponibilidade de nutrientes no solo interagem na regulação dos padrões de recrescimento da floresta tropical amazônica, o professor da Universidade de Viçosa (MG), Marcos Heil Costa, apresentou para a comunidade científica do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), no dia 30 de novembro, dados do estudo “Capacidade de regeneração da floresta tropical amazônica sob deficiência nutricional: resultados de um estudo numérico da interação biosfera-atmosfera”, desenvolvido em parceria com Mônica Carneiro Alves Senna.

Após a palestra, Marcos Heil, acertou uma nova colaboração com as pesquisadoras Ima Vieira e Arlete Almeida, ambas do MPEG e do INCT Biodiversidade e Uso da Terra na Amazônia. O pesquisador de Viçosa desenvolveu o modelo acoplado atmosfera-biosfera CCM3-IBIS, que simula as interações biofísicas de curto prazo entre a superfície e a atmosfera através das trocas de energia, água, carbono e momentum. Em seguida simula as retroalimentações (que gera interdependência) de longo prazo entre o ecossistema e o clima, gerando mudanças na cobertura vegetal e nos reservatórios de carbono. “Nos atuais modelos de simulação, a vegetação é sempre fixa. O diferencial deste é justamente a relação entre diferentes variantes da vegetação”, observa o professor.

As variantes – Segundo Marcos Heil, o modelo representa satisfatoriamente o clima, a estrutura e a dinâmica da vegetação amazônica. Os dados obtidos em diferentes locais estudados, demonstram diferenças espaciais notáveis nas variáveis de estrutura dessa vegetação. “Uma representação realística da variabilidade espacial da estrutura e dinâmica da vegetação depende de um melhor entendimento da variação espacial da alocação de carbono e da sua relação com variáveis ambientais”, acrescenta.

Dessa forma, foram apresentados dados sobre os nutrientes do solo que contribuem para o desenvolvimento da chamada floresta secundária, ou capoeira, relacionados com diferentes cenários de desmatamento. É essa relação entre solo, nutrientes, vegetação e, conseqüentemente, clima atmosférico que constroem a ‘retroalimentação do ecossistema’, nesse caso o ecossistema amazônico.

Heil Costa assinala a importância do Museu Goeldi nas pesquisas referentes às florestas secundárias, com ênfase nos trabalhos de Ima Vieira, ecóloga, coordenadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Biodiversidade e Uso da Terra na Amazônia. Todavia, lembra: “São necessários mais estudos sobre a fertilidade do solo e a acumulação da biomassa em florestas secundárias, especialmente sobre a Amazônia central e o norte do Mato Grosso”, completa Marcos Heil.

“As mudanças climáticas são mais sentidas nos pólos do globo e o desmatamento é mais comum aqui, na linha do Equador, onde os impactos do clima são menores. Para o Brasil é importante avaliar a relação de interdependência e interferência entre esses fatores”, defende o professor de Viçosa.

Alerta vermelho – Uma das conclusões da pesquisa foi que a redução da precipitação (chuva) causada pelo desmatamento não é suficiente para impedir o recrescimento da floresta. Entretanto, quando a redução da precipitação é associada à uma limitação nutricional do solo, um processo de empobrecimento da vegetação pode ocorrer, como na região do norte do estado do Mato Grosso, dificultando a recuperação da floresta.

“Isso é preocupante, pois o Mato Grosso tem as mais altas taxas de desmatamento da Amazônia, e o fogo é o método dominante para a limpeza e manutenção da pastagem na região. Por isso, o estado deveria ser o alvo principal de iniciativas para a conservação, com o intuito de evitar os impactos dessa mudança de cobertura vegetal no ciclo do carbono e nas mudanças climáticas”, complementa o Marcos Heil, que também é membro do Conselho Científico da Rede Temática de Pesquisa em Modelagem Ambiental da Amazônia e pesquisador do programa Experimento de Grande Escala da Biosfera - Atmosfera na Amazônia (LBA).

A partir de determinada latitude, o clima depende da vegetação. Uma vegetação menos estruturada, mais pobre, tem menos biomassa. Gestores públicos e moradores precisam estar atentos para os seguintes sinais que indicam comprometimento da capacidade florestal da localidade: quando existe um aumento na duração da estação seca e a capoeira não cresce.

Texto: Vanessa Brasil e Joice Santos

 

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