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Um museu sem paredes para preservar manifestações históricas e culturais
Visando à melhoria na qualidade de vida da população, pesquisadores
estudam a implantação de um Ecomuseu em Curuçá - PA
Agência Museu Goeldi – A preocupação com as ameaças de perda de conhecimento e do saber tradicionais, da biodiversidade local e do impacto sobre recursos naturais são os principais motivos pelos quais pesquisadores e técnicos do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) e entidades parceiras estão debruçadas na formulação da estrutura e concepção conceitual do Ecomuseu do Mangue, no município paraense de Curuçá, zona costeira do estado.
“A ideia de formular um Ecomuseu surgiu a partir de uma experiência em um projeto de desenvolvimento, capacitação, diagnóstico biológico e avaliação sócio-ambiental realizado com comunitários e estudantes de Curuçá”, dizem os articuladores da equipe do Goeldi, o pesquisador da Coordenação de Botânica, Samuel Almeida, e a coordenadora do Núcleo de Visitas Orientadas ao Parque Zoobotânico (Nuvop), Helena Quadros.
Essa experiência foi o projeto Casa da Virada, que realizou uma série de ações de capacitação, mobilização e pesquisa científica, fruto da parceria entre o Instituto Peabiru, a Petrobras Ambiental, a Associação dos Usuários da Reserva Extrativista Mãe Grande (Auremag) e o Museu Goeldi, desenvolvido entre os anos de 2006 e 2009.
Dentre os efeitos do projeto, o destaque vai para a promoção do fortalecimento da sociedade civil organizada, “a união entre a comunidade”, diz a bolsista do Nuvop Camila de Fátima Moura, que realizou a pesquisa “Identificação e levantamento histórico-cultural do município de Curuçá, PA, por meio da memória dos atores sociais envolvidos no manguezal”, no âmbito do “Casa da Virada”.
O Ecomuseu e suas metas – Foi a partir dessa experiência que se iniciaram as discussões sobre o “Ecomuseu”, conceito formulado pelo sociólogo e museólogo Hugues de Varine, e cujo diferencial é a delimitação de sua territorialidade, associado ao desenvolvimento sustentável das comunidades. Segundo os articuladores, um ecomuseu deve promover a formação de cidadania e respeito aos valores culturais e ambientais, rompendo com o modelo tradicional de museu restrito a ambientes fechados, além de ser aberto tanto fisicamente como conceitualmente, uma vez que a própria comunidade deve participar de sua concepção e ser destinatária de muitas de suas ações.
Nesse sentido, a implantação do Ecomuseu na zona costeira do Pará se reveste de importância social, ecológica e econômica, uma vez que, além do desenvolvimento das comunidades locais, também pretende-se aprimorar a conservação dos manguezais e de sua biodiversidade, auxiliando no manejo dos recursos e alavancando o turismo ecológico, visando a incrementar a economia local e gerando renda e emprego.
Além disso, promover o desenvolvimento sustentável, a elevação da qualidade de vida das populações humanas que dependem dos recursos naturais dos ecossistemas costeiros, e estimular a organização local também são metas do Ecomuseu do Mangue, assim como a conscientização ambiental da população
Outra inovação dessa categoria de museu é o fortalecimento da relação entre as comunidades e o patrimônio cultural, socioambiental e biológico. Os testemunhos do passado, traços de identidade de um território, devem ser de responsabilidade coletiva servindo de instrumento de educação popular para a invenção criadora do futuro, daí a importância do resgate e da valorização desse patrimônio.
Com o Ecomuseu, tem-se a possibilidade de “conciliar a conservação ambiental com o uso de recursos que ocorre no ecossistema de manguezais e ecossistemas associados como as restingas, dunas, lagunas, e praias”, conta Samuel. “Essas atividades, se não forem bem executadas, podem gerar impactos negativos, e o novo museu pretende ordenar esses usos, juntamente com as autoridades e comunidades locais, reforçando ainda a atuação de órgãos ambientais”, completa.
A região – E vem daí a preocupação com o ambiente de Curuçá, por ser a região mais impactada da região nordeste paraense pela ação humana, juntamente com a zona Bragantina, e engloba os manguezais da costa atlântica do Pará, que estão entre os mais extensos e densos, juntamente com aqueles da costa do Amapá. Esses ecossistemas são de elevada produtividade e fertilidade, e é onde diversas espécies da fauna amazônica estabeleceram berçários, área de vida e de reprodução.
No entanto, o cultivo intenso e o emprego de tecnologias primitivas, com destaque para o caráter itinerante das plantações e de cultivos de subsistência com baixo valor agregado, contribuíram para a decadência econômica da região, degradação do solo, tornando-o improdutivo, mesmo para os baixos padrões da sua agricultura. Então, ameaças a esse ecossistema surgem juntamente com o aumento da população, o fluxo de turistas e a perda de conhecimento e dos saberes tradicionais.
Estrutura – A abrangência territorial do Ecomuseu do Mangue pretende, dessa forma, englobar grande parte dos municípios da região costeira paraense, onde as atividades extrativistas e econômicas associadas aos manguezais são representativas e significativas em relação à economia local.
A estrutura básica do Ecomuseu seria composta por um território, incluindo as áreas dos municípios selecionados; um memorial, localizado em um dos municípios, preferencialmente onde os manguezais representativos, que esteja em uma posição central intermediária na zona costeira; uma estrutura de apoio educacional e de formação e treinamento; as trilhas ecológicas demonstrativas dos aspectos ambientais e culturais, visando educação ambiental e apoio ao ecoturismo; e as mostras e exposições itinerantes percorrerão vilas e comunidades pertencentes ao território do ecomuseu.
As próximas etapas para a implantação do novo Ecomuseu serão a discussão do modelo junto às comunidades, autorizadas municipais e organizações locais da sociedade civil do município paraense.
Um outro Ecomuseu está em projeto na região das ilhas de Belém, Conheça um pouco do projeto a partir da exposição “Estivas”
Texto: Vanessa Brasil
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