Predadoras, assustadoras, encantadoras...

Tudo isso e muito mais são características das formigas que seduzem
pesquisas no mundo neotropical de Caxiuanã no Pará

Jimena Felipe Beltrão, Agência Museu Goeldi

Sete anos de pesquisa; mais de 200 mil formigas coletadas; e um capítulo de livro a caminho esses são alguns dos resultados do trabalho coordenado por Ana Harada sobre Ecologia, avaliação e monitoramento de Florestas Tropicais de Caxiuanã: Protocolo de formigas de liteira. Pesquisadora da Coordenação de Zoologia do Museu Paraense Emílio Goeldi, especialista em formigas, Ana Harada, tem orientado uma série de estudantes em diversos níveis. O mais recente resultado das pesquisas foi o estudo desenvolvido em nível de iniciação científica por Naraiana Loureiro Benone. O foco dessa pesquisa são as  formigas: strumigenyiformes (Formicidae, Myrmicinae, Dacetini), que ocorrem na Floresta Nacional (Flona) de Caxiuanã, em Melgaço no Pará, local onde o Museu Goeldi mantém, desde 1993, a Estação Científica Ferreira Penna.

Predadoras, assustadoras, encantadoras, as formigas podem ser isso tudo e muito mais. As formigas atuam em todos os níveis da cadeia alimentar desempenhando importante papel ecológico. São elas, por exemplo, que contribuem para o controle biológico de muitas espécies de pragas. As strumigenyiformes de Caxiuanã ocorrem, também, em outras localidades da região Netropical e, ao se alimentarem de colêmbolos contribuem para regular as populações desses seres de seis patas, ou hexapodes na linguagem científica.

Da Classe Entognatha, os colêmbolos se caraterizam por cabeça direcionada para baixo; peças bucais escondidas na cabeça; e uma estrutura bifurcada ou fúrcula localizada no quarto segmento abdominal, que os permite pular”, como explica a jovem pesquisadora, estudante do curso de Biologia, do Centro de Estudos Superiores do Pará (Cesupa), Naraiana Loureiro Benone. Os colêmbolos são importantes decompositores de solo, e se defrontam com as predadoras formigas.

“Pouca gente sabe”, comenta a pesquisadora Ana Harada, “mas as formigas têm grande importância ecológica”. Além de serem partícipes de todos os niveis da cadeia alimentar, “têm muita importância na aeração e na fertilização do solo”, ensina. Ao construir túneis, elas removem e aeram o solo. Nesse processo, as folhas cortadas pelas saúvas, além de servirem de alimento para os fungos por elas cultivado, contribuem para o enriquecimento do solo, principalmente, com nitrogênio e fósforo, elementos químicos vitais para melhorar a qualidade dos solos.

Da classificação do reino animal – Filo, Reino, Ordem, Classe, Família, Gênero, Espécie são as principais categorias da classificação dos animais. No caso das formigas, existe uma categoria intermediária entre Família e Gênero chamada de tribo que é definida através de um conjunto de características peculiares. A tribo que Naraiana estuda é relativamente pouco estudada. As strumigenyiformes apresentam cabeça com formato de pêra – periforme, como preferem os pesquisadores; pelos que revestem o corpo, denominados, pelos especialistas de pilosidade bizarra; e cerdas em formato, tamanho e posição, bem distintas de outras formigas, segundo explica Naraiana.

Uma nova espécie e vários registros de ocorrências de que ainda não se tinha notícia foi o que o trabalho de investigação de Naraiana apurou. Strumigenys caxiuanensis é a nova espécie encontrada; uma novidade confirmada por três dos especialistas referência no estudo do grupo – Brian Fisher, John Longino, Steve Cover. Ainda sendo descrita pelos pesquisadores do Goeldi, a nova espécie foi anunciada durante a apresentação do trabalho de Naraiana no último Seminário de Iniciação Científica do Goeldi, realizado em junho de 2009.

Encontrar pela primeira vez em um dado local, formiga de espécie já conhecida, mas ainda não vista no Estado ou no país está entre os objetivos de pesquisadores que estudam áreas de preservação. Segundo Naraiana, a Strumigenys perdita e a Pyrâmica auctidens das quais não se tinha notícia de ocorrerem no Brasil, são muito comuns em Caxiuanã. O estudo de distribuição geográfica permitiu a definição de novas ocorrências para o Brasil e para a região. Angústia da classe científica, a preservação é fundamental para certos achados. Não fosse Caxiuanã preservado, é provável que novas ocorrências não tivessem sido detectadas.

Preservação que garante pesquisa - Resultado de pesquisas continuadas e conduzidas com base em protocolos internacionais, o trabalho de Ana Harada e outros pesquisadores do Goeldi e seus parceiros mundo afora, será publicado em livro. Para o final de 2010, a pesquisadora Ana Harada e um grupo de especialistas que atuam no projeto “Avaliação e Monitoramento de Florestas Tropicais - Tropical Ecology, Assessment and Monitoring” - TEAM/Caxiuanã, prometem a publicação de um livro com os resultados de aplicação de protocolos de pesquisa acordados internacionalmente e aplicados na Amazônia Brasileira, especificamente na Floresta Nacional de Caxiuanã, no Estado do Pará.

Mas por que Caxiuanã? Segundo Ana Harada, porque trata-se de área de preservação e de elevada biodiversidade e excelente infraestrutura para a pesquisa. As áreas com maior conhecimento científico na Amazônia são: Caxiuanã, no Pará; Reserva Ducke e a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Amazonas, no Brasil;  Madre de Dios, no Peru; e Reserva Humboldt na Colômbia, segundo afirma Ana Harada. Assim, Caxiuanã detém um dos sistemas naturais neotropicais de mais alta diversidade biológica, preservados e pré-alteração antrópica.

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