
Forte Príncipe da Beira passa por mais uma etapa na sua revitalização
O mais antigo monumento colonial de Rondônia é foco de trabalho
arqueológico no qual o Museu Goeldi participa em parceria com o Iphan
Agência Museu Goeldi – A arqueologia recupera informações da vida de um Forte na Amazônia Ocidental. Marco da presença militar portuguesa na Amazônia e de delimitação do território, o Real Forte Príncipe da Beira, em Rondônia, está sendo revitalizado através de projeto do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que pretende resgatar e preservar sua história por meio da realização de estudos arqueológicos e da conservação de suas estruturas e ruínas.
Devido ao caráter militar da edificação, o pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi, Fernando Marques, que desde o ano passado desenvolve trabalho de campo na área, afirma que já esperava encontrar artefatos militares no local, como armas de fogo e insígnias das fardas. “Mas a nossa surpresa foi encontrar cerâmicas com traços de ribeirinhos e caboclos da região, o que mostra a convivência desses militares com a comunidade ao seu redor”, conta.
Coordenada pela 16ª Superintendência do Iphan, a “Segunda Etapa dos Serviços de Estabilização das Ruínas do Real Forte Príncipe da Beira, Rondônia” foi concluída em novembro de 2009 e contou com a colaboração do arqueólogo do Museu Goeldi, Fernando Marques. Marques coordena o subprojeto “Acompanhamento Arqueológico dos Serviços de Limpeza e Remoção de Materiais Culturais e Descartes Através de Trabalhos Arqueográficos da Área Intramuros do Forte Príncipe da Beira, Rondônia”, que conta com a participação de Deusdedit Leite Filho, da Secretaria de Cultura do Maranhão.
Durante a segunda etapa, as atividades compreenderam a remoção de vegetação nas estruturas e a identificação e coleta de materiais culturais no espaço interior da fortificação, em uma área de de cerca de 100m x 100m. Além dos objetos da cultura indígena encontrados, outra surpresa foi o estado de conservação de alguns materiais descobertos, inclusive, os pisos da fortificação. Segundo Marques, as chuvas, que são muito comuns na área, além de ocasionarem diretamente o desmoronamento das paredes do local, potencializam a proliferação de vegetação intrusiva dentro do Forte, o que traz prejuízos à sua integridade. No entanto, no geral, os objetos estavam bem conservados, de acordo com o pesquisador.
Materiais – Se na primeira fase do projeto foram coletadas cerca de mil amostras de material arqueológico, agora o material de ambas as fases já ultrapassa 40 mil. São louças, armas de fogo, balas de canhão, moedas, material de construção, cerâmicas, vidros, metais, entre outros. “Essas amostras refletem a diversidade cultural e material do povo que habitava o Forte da Beira, não só os que moravam no local, mas os que o freqüentavam e lá deixaram vestígios de suas atividades, sendo militares ou não”, afirma Marques.
A partir dessas amostras, será preparado um banco de dados com as informações coletadas como forma de valorizar o Forte e o passado da região. O caminho natural, segundo o pesquisador do Goeldi, poderá ser a preparação do próprio Forte como espaço de visitação e exposição já que é somente lhe dando uma utilidade que ele se manterá preservado.
Para isso, a comunidade deve ser engajada, pois é ela a principal beneficiária da fortificação. “Eles precisam saber da riqueza material que o Forte possui, já que ele tem objetos de vários períodos, desde a sua construção (em 1776) até início do século XX, quando foi fechado”, conta Marques.
Próxima etapa – A terceira etapa do projeto está programada para o final do mês de fevereiro, quando serão escavados os corredores do Forte e a residência do governador, onde a equipe de trabalho ainda espera encontrar materiais de melhor qualidade. Nos corredores, a expectativa está relacionada aos objetos que podem ter sido descartados e que também poderão refletir a mistura entre as etnias que habitavam o local.
Texto: Vanessa Brasil
O Príncipe da Beira
O Forte Príncipe da Beira está situado na margem direita do rio Guaporé, fronteira natural do Brasil com a Bolívia, no município de Costa Marques, sudoeste de Rondônia. As suas dimensões monumentais, um longo período de desativação e sua localização em área de difícil acesso impuseram grandes dificuldades ao seu gerenciamento constante.
A sua construção foi projetada pelo engenheiro italiano Domingos Sambucetti, que integrou a comissão demarcadora dos limites lusitanos instituída pelo Marquês de Pombal, e a obra teve início em 20 de junho de 1776, com o lançamento da pedra fundamental. Após algumas modificações no plano original o forte foi inaugurado em agosto de 1783, pelo governador D. Luiz de Albuquerque de Melo Pereira e Cárceres.
O valor histórico e arquitetônico do Forte, que é o mais antigo monumento colonial de Rondônia, e seu preocupante estado de abandono levaram o Governo Federal a reconhecê-lo com patrimônio histórico nacional em julho de 1950. O Príncipe da Beira é considerado um dos exemplares monumentais da engenharia militar na região amazônica e compõe-se de planta em forma quadrangular, com quatro baluartes consagrados a Nossa Senhora da Conceição, Santa Bárbara, Santo Antonio de Pádua e Santo André Avelino. O local comporta, ainda, 56 canhoneiras em muralhas de até dez metros de altura e compreende outras quinze construções na sua praça interna, identificadas como alojamentos, hospital, armazém de víveres, capela, entre outros cômodos.
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