Investigando o interior do famoso Elixir Paregórico
Estudo de padrões estruturais da popular planta medicinal revela peculiaridades amazônicas
e traz impactos benéficos à saúde humana
Agência Museu Goeldi - Pesquisa desenvolvida no Museu Goeldi sobre a Piper callosum Ruiz & Pav. (Piperaceae) apresenta as peculiaridades da espécie amazônica conhecida como “Elixir Paregórico”, um dos produtos mais populares à venda nas barracas de ervas medicinais no mercado do Ver-o-Peso, em Belém (PA).
Enjôo, cólicas, dor de estômago ou problemas digestivos: o Elixir Paregórico cura tudo. Isso é o que diz a medicina tradicional sobre essa planta tão conhecida e utilizada pela população de Belém, capital do Pará. E foi sobre essa espécie identificada pelos botânicos com o nome científico de Piper callosum Ruiz & Pav., que o bolsista do Museu Paraense Emílio Goeldi, Rolf Silva, fez a sua pesquisa dentro do Programa de Capacitação Institucional (PCI) entre os anos de 2006 e 2007.
A Piper callosum Ruiz & Pav. é uma planta aromática e medicinal da Amazônia, e é encontrada com facilidade na região. Mais conhecida como Elixir Paregórico, a espécie também é conhecida por ventre-livre e erva de soldado, sendo utilizada de diversas maneiras pela população local. No entanto, Rolf Silva observa que essa “utilização popular” da espécie não é baseada em critérios científicos, o que pode ocasionar problemas, inclusive, na identificação da planta correta para tal uso medicinal.
“O fato de não termos pleno domínio sobre o conhecimento biológico das espécies amazônicas, faz com que o aproveitamento e os benefícios dessas espécies sejam apenas superficiais”, explica Rolf Silva em seu trabalho, publicado na primeira edição do livro do Prêmio Bolsista Destaque PCI, lançado este ano pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. Mais informações sobre a publicação no box.
A pesquisa - O trabalho de Rolf teve como objetivo contribuir para o conhecimento científico sobre a Piper callosum, além de estabelecer os padrões estruturais microscópicos da planta - padrões esses que são úteis ao controle de qualidade utilizado em testes de autenticidade. “Como na Amazônia as fraudes e adulterações de plantas medicinais e drogas vegetais são comuns, o estabelecimento de tais padrões exerce impacto direto não apenas no âmbito cientifico, mas também na saúde humana”, explica o bolsista PCI.
A preocupação com a saúde humana também é ressaltada pelo autor da pesquisa, quando este lembra que o tipo de estudo que realizou cumpre parte das exigências da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a regulamentação de medicamentos fitoterápicos. “Esse é um estudo de base, pois fornecerá informações básicas sobre a planta que poderão ser utilizadas em estudos mais específicos na área da farmacologia (ramo da medicina que estuda as propriedades químicas dos medicamentos e respectivas ações)”, conta Rolf.
Orientado pelo pesquisador do MPEG, Hilton Costi, o estudo analisou cinco amostras compostas - com mais de um indivíduo -, coletadas em diferentes pontos da Zona Metropolitana de Belém e em períodos do ano também diversos. Após esse período inicial, o processamento das amostras e a aplicação das técnicas de pesquisa foram realizadas nos laboratórios de Anatomia Vegetal, da Coordenação de Botânica, e no de Microscopia Eletrônica de Varredura (MEV), da Coordenação de Pesquisa e Pós-Graduação. Mais informações do Laboratório de MEV no box 2.
O diferencial - O trabalho apresentou várias peculiaridades da espécie amazônica em relação à bibliografia disponível de espécies de outras regiões. Dentre essas, o bolsista destaca a ornamentação da superfície foliar, a inclusão de minerais nas estruturas internas e a permanência de um padrão biológico da planta entre os períodos de estiagem e chuvoso.
“Isso é uma peculiaridade de plantas que ocorrem na Amazônia, e que não é encontrada com facilidade em outros locais” afirma Rolf. “Além disso, a pesquisa também mostrou que a Piper callosum Ruiz & Pav. possui um grande potencial fitoquímico (estudo dos componentes químicos da planta) a ser estudado. Por isso, a pesquisa com essa espécie ainda não acabou”, lembra o bolsista, que incluirá a espécie em seu trabalho de doutorado.
Assim, o estudo além de servir de base, se destaca pelo ineditismo, uma vez que esse tipo de análise, com a utilização de técnicas de microscopia eletrônica, nunca havia sido registrado para esta espécie. “A utilização do Laboratório de MEV também aponta os benefícios que a ferramenta traz à sociedade. O estudo pode beneficiar à saúde da população como um todo”, ressalta o orientador.
Prêmio Bolsista Destaque (1)
Buscando tornar mais transparente o Programa de Capacitação Institucional, desenvolvido nas Unidades de Pesquisa do Ministério da Ciência e Tecnologia, o Prêmio Bolsista Destaque PCI apresenta os resultados das pesquisas realizadas nessas unidades em um lançamento editorial de março de 2010. A edição compila e destaca os trabalhos do Programa concluídos entre os anos de 2006 e 2008, além de incentivar os novos cientistas.
A principal motivação da existência do Prêmio, criado em 2008, é “ressaltar a importância da valorização da pesquisa e do ser humano frente ao avanço tecnológico”, lembra o Secretário Executivo do MCT, Luiz Antônio Rodrigues Elias, na apresentação do livro que está em sua primeira edição. Ao que o Subsecretário de Coordenação das Unidades de Pesquisa do MCT, Jose Edil Benedito, acrescenta no prefácio: “o livro brinda o sucesso desse Programa (PCI) e se mostra como um processo efetivo de incentivo ao desenvolvimento científico e de disseminação de conhecimento”.
Do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), foram publicados três trabalhos, sendo dois das Coordenações de Pesquisa e Pós-Graduação (CPPG) e de Ciências Humanas (CCH), e outro do Serviço de Comunicação Social. Os trabalhos selecionados, e publicados no livro, concorreram com as produções de outras Unidades do MCT, como o Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe), o Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast) e o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF).
O Laboratório de MEV
Criado em 2000, o laboratório de Microscopia Eletrônica de Varredura (MEV) está instalado no Campus de Pesquisa do Museu Emílio Goeldi e tem o objetivo de apoiar os projetos de pesquisa da instituição, além de atender às entidades parceiras do MPEG.
É no Laboratório que está localizado o microscópio eletrônico de varredura LEO 1450 VP, tecnologia de última geração, produzido na Inglaterra, que permite o exame tanto de macro como de microestruturas.
O foco da imagem gerada pelo equipamento é 100 vezes maior que a de um microscópio ótico convencional, produzindo, então, imagens tridimensionais com grande definição. Essa característica possibilita melhor visualização dos objetos analisados, já que estes são muito pequenos, como microfósseis, pólens ou tecidos orgânicos, a exemplo das amostras do Elixir Paregórico.
Texto: Vanessa Brasil
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