Iniciação Científica desvenda o desconhecido na maior floresta tropical do mundo
Muito se faz para chegar a identificar uma nova espécie e os sinais físicos
são determinantes nas conclusões dos pesquisadores
Agência Museu Goeldi - Eles têm como características órbitas oculares arredondadas, dentes pré-maxilares diminutos e pontiagudos, dimorfismo sexual, manchas, números de escamas diferenciados e surpreendem quem os estuda. Pelos rios Amazonas, Orinoco, Negro, Trombetas e Mogno há muitas espécies de peixes conhecidas e por conhecer. Um vasto território para a formação de futuros pesquisadores. São muitos os obstáculos: “Tive muitas dificuldades, achei até que não ia conseguir, mas no final deu tudo certo”, relata estudante de Iniciação Científica do Museu Goeldi, em Belém que, com outros colegas, começa uma vida acadêmica que, com sorte e empenho, lhes dará a formação necessária para encontrar muitas outras novas espécies na imensa, porém finita, biodiversidade amazônica.
Bolsistas do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) que participam do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) apresentam todos os anos, os resultados obtidos durante um ano de pesquisa. Em 2009, a descrição de três novas espécies de peixes na Amazônia é o saldo parcial de um programa que prepara cientistas desde a sua graduação. Sob a orientação do pesquisador Wolmar Benjamin Wosiacki, curador da Coleção de Ictiologia do Goeldi, os trabalhos aguardam confirmação de publicação em revistas científicas e provam, como se precisasse, que a Amazônia ainda guarda segredos.
Apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o programa visa despertar vocações científicas, incentivar talentos potenciais, possibilitar o domínio do método científico e desenvolver o pensar e a criatividade do universitário para a pesquisa na Amazônia. “A bolsa de Iniciação Científica é uma boa forma de se iniciar na pesquisa e conhecê-la”, destaca o curador.
Iniciante e premiada – “Eu nunca tinha trabalhado com pesquisa antes, a minha área era mais educação”, conta a bolsista Tamires Danielle Viana que teve o seu trabalho, intitulado “Descrição de uma nova espécie do Gênero Hemigrammus (Ostariophysi: Characiformes: Characidae)” escolhido como um dos melhores de 2009 e apresentado no XVII Seminário PIBIC. A descrição foi um dos oito estudos selecionados pelos avaliadores e gestores do Programa, dentre os 80 apresentados no seminário.
Segundo Tamires, a análise de exemplares presentes na Coleção Ictiológica do MPEG detectou a existência de uma espécie nova do gênero Hemigrammus, e esta foi descrita em seu trabalho. “O estudo das coleções é essencial para a Sistemática e Taxonomia, elucidando uma série de problemas existentes na nomenclatura e classificação dos seres, funcionando como fonte permanente de dados sobre a biodiversidade”, conta. O orientador completa: “Às vezes, quando a gente descreve uma espécie da Coleção, ela já nem existe mais na natureza, mas o importante que é fica no acervo como registro. No caso do Museu, por exemplo, ainda existem muitas espécies a serem estudadas e detalhadas”.
O conhecimento do gênero pesquisado ainda é incerto e, por isso, precisa de um trabalho taxonômico detalhado. Daí, a importância de estudos sobre a situação taxonômica do gênero e da sua diversidade. “O Hemigrammus Gill é um dos gêneros mais numerosos contendo, aproximadamente, 43 espécies reconhecidas atualmente e está amplamente distribuído nos rios Amazonas, Orinoco, Paraná-Paraguai, nas drenagens do São Francisco e nos rios das Guianas, Suriname e no noroeste do Brasil”, diz a bolsista, estudante do Centro Universitário do Estado do Pará (Cesupa).
A pesquisa e a nova espécie – O levantamento de novas espécies se estendeu à região da ilha do Marajó. Do município de Chaves, na foz do Amazonas, vieram 35 exemplares depositados na coleção do Museu Goeldi. Ao todo, foram tomadas 21 medidas e feitas 13 contagens por exemplar para a identificação que também se baseou em bibliografia especializada para o gênero Hemigrammus.
No início, sempre fica a dúvida se a espécie é nova ou não. Por isso, o estudo da literatura, a comparação das características do material analisado com as descrições, para poder separar a espécie nova das já catalogadas”, relata Tamires, que pretende fazer a pós-graduação nessa linha de pesquisa.
A nova espécie, que ainda não tem definida denominação específica (Hemigrammus sp. n.), pode ser diagnosticada pela presença de uma mancha escura na parte superior da órbita dos olhos, presença de dentes numerosos no pré-maxilar, corpo comprimido, moderadamente alongado e relativamente alto, boca curta e terminal, entre outras características. A espécie pertence ao grupo Hemigrammus tridens, que inclui espécies com manchas umerais, localizadas na parte posterior à abertura das brânquias, com uma mancha caudal e normalmente uma linha ou faixa longitudinal ao longo do corpo.
Texto: Vanessa Brasil.
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