Pesquisa na fronteira entre a zoologia e a ecologia animal

Seção de Zoologia do XVIII Seminário Pibic apresenta trabalhos que ressaltam
pontes entre a zoologia e a ecologia

 

Agência Museu Goeldi - Ecologia é a ciência que estuda as relações dos seres vivos entre si ou com o meio orgânico ou inorgânico no qual vivem. Já a Zoologia é definida como ramo da biologia que estuda os animais. Durante o XVIII Seminário de Iniciação Cientifica do Museu Goeldi, trabalhos da Coordenação de Zoologia (CZO) mostraram, em sua maioria, como são íntimas as relações entre essas duas áreas da ciência.

Dos nove trabalhos apresentados nessa sessão, pelo menos cinco focaram na relação entre animais e diversos componentes do ecossistema, descrevendo como seus hábitos podem ser condicionados pelo ambiente em que vivem. “Orçamento de atividades e dieta de um grupo de Macacos de Cheiro (Saimiri sciureus) em ambiente semi-natural, no Bosque Rodrigues Alves, Belém, Pará” e “Comportamento e dieta de um grupo de Sagüi-Preto (Saguinis niger) dentro da área de preservação do Bosque Rodrigues Alves Parque Zoobotânico da Amazônia, Belém, Pará, Brasil”, respectivamente de Paulo de Sousa e Paulo Santos Trindade, ambos orientados por Liza Maria Veiga, Ph.D. em Biologia Comportamental, são exemplos disso.

Em uma linha comportamental, os pesquisadores observaram durante quase um ano as espécies de sagüi-preto e macaco de cheiro para determinar padrões de comportamento, para verificar, inclusive, possíveis mudanças comportamentais provocadas por condições de manejo e conservação das espécies em ambiente semi-natural.  Algumas das atividades analisadas foram alimentação, interação social, deslocamento e forrageio (busca por alimento).

Preferências - Um dos dados averiguados sobre os macacos de cheiro diz respeito à alimentação. Verificou-se que o local onde mais se registrou as espécies era exatamente próximo à cozinha onde se prepara a alimentação dos animais. Depois da cozinha, o viveiro das araras é o segundo local na preferência dos macacos do Bosque Rodrigues Alves, em Belém. Para os pesquisadores, esse comportamento revela que a distribuição dos animais está condicionada à disponibilidade de alimentos.

Na alimentação em si, os macacos preferem as frutas (61%). “Metade dos recursos alimentares é fornecido pelos tratadores e visitantes do Bosque, o que provoca uma redução significativa nos percentuais de deslocamento e forrageio em comparação com os animais da mesma espécie que vivem em ambientes onde não há este beneficio”, explica Paulo de Sousa.

Um trabalho similar, mas aplicado a botos, foi desenvolvido por Gabriel Melo Santos, que, sob a orientação de José de Sousa Jr., realizou o “Estudo eto-ecológico do boto-vermelho (Inia geoffrensis (Cetacea, Iniidae)), e dos golfinhos do gênero Sotalia (Cetacea, Delphinidae) no rio Guamá”. O objetivo da pesquisa é descrever e analisar o uso do habitat, composição e tamanho dos grupos dos cetáceos do gênero Inia e Sotalia para averiguar a ecologia e o comportamento destes animais na região. Um das conclusões de Gabriel mostra que ambas as espécies se utilizam do rio Guamá como ambiente de reprodução e alimentação, no entanto, ao menos o Sotalia, não fazem desse rio a sua residência.

Dieta - Na mesma linha de estudos sobre interação, dois trabalhos avaliaram a dieta de aves, avaliando seus hábitos nutritivos e como isso pode ser indicativo das condições físicas de um ambiente. Assim, os estudantes Luís Gustavo Cardoso e Raphael Nunes, ambos orientados por Maria Luiza Videira, analisaram, respectivamente, os hábitos alimentares no Parque Ecológico do Gunma, em Santa Bárbara e na Floresta Nacional de Caxiuanã, município de Melgaço, ambos no estado do Pará.

Para desenvolver a pesquisa, foram avaliadas as fezes e/ou regurgito das aves - para isso, aves foram capturadas em redes ornitológicas e deixadas por alguns minutos para a coleta de material. A análise do conteúdo estomacal, no entanto, requereu o sacrifício de algumas aves.

No Parque Gunma foram analisadas amostras de 42 espécies de aves, enquanto que, em Caxiuanã, foram estudadas 19 espécies, sendo que em ambos houve o predomínio de aves insetívoras. No caso de Santa Bárbara, foi constatada a importância da espécie Miconia ciliata para a alimentação dos pássaros: das 19 espécies vegetais identificadas como alimento, ela foi a que teve maior ingestão, o que pode estar associado à abundância de frutos desta espécie ao longo do ano. Quando uma ave se alimenta de frutos ela é denominada frugívora. Essa relação aves e plantas é fundamental por ser tratar de um mecanismo chave no ciclo de crescimento florestal, participando dos processos que geram a biodiversidade.

Outros trabalhos dedicaram-se à descrição de novas espécies de peixes, como os trabalhos de Eduardo Gonçalves e de Luiz Antônio Peixoto que, respectivamente, escreveram: “Descrição de uma nova espécie do gênero Hypoptopma (Siluriformes; Loricaricariidae)” e “Descrição de uma nova espécie de Dicrossus (Perciformes; Cichlidae). Ainda na área de Ictiologia, ramo da zoologia que estuda os peixes, e também orientado por Wolmar Wosiacki, Curador do Departamento de Ictiologia do MPEG, Vitor Hudson Almeida apresentou estudo sobre “A relação peso/comprimento pode estimar tamanho de primeira maturação de peixes? Um estudo de caso com um Auquenipterídeo da Amazônia Oriental, Brasil”.

Para a pesquisadora Maria Luiza Videira, mediadora das apresentações, “esse tipo de iniciativa do Museu [estímulo à iniciação cientifica] cumpre um papel fundamental de formação de talentos, abrindo caminho para o mestrado e para uma vida acadêmica. Isso é o alicerce, a base, uma oportunidade para ingressar na carreira cientifica”.

O Dr. Adriano Lúcio Peracchi, pesquisador da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e ex-diretor da Sociedade Brasileira de Zoologia, foi o avaliador da sessão.

 

Texto: Diego Santos

 

 

 


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