A Casa Grande do Engenho Murutucu

Uma avaliação das condições atuais do sítio mais importantee representativo de uma época

Por Fernando Marques¹

O sítio do Murutucu constitui-se num conjunto de ruínas de grande porte, com paredes em alvenaria de pedra argamassada e tijolo maciço, mas que na maioria dos casos resumem-se a apenas indícios de alicerces. O solo sobre o qual foi erigido o Engenho é típico de várzea e está inteiramente descaracterizado, com diversas ondulações, naturais e/ou decorrentes de trabalhos de terraplanagem e controle de vegetação que tem sido desenvolvidas durante este período. Especificamente, a área que corresponde à casa grande revela elevado grau de destruição face à derrubada de suas paredes em fins de 1995.

Os levantamentos métricos iniciais resultaram na definição de uma área de aproximadamente 17m x 30m, com a altura do entulho variando até cerca de 50cm. Foi possível observar indícios de paredes que definiam ambientes da casa, os quais passaram a determinar a subdivisão da área em setores numerados que viriam a ser escavados.

Durante todo o processo de escavação os entulhos foram cuidadosamente removidos, a fim de controlar a profundidade do piso detectado previamente por perfurações.

No sentido de melhor ilustrar o desenvolvimento desta prospecção procedeu-se com o devido registro fotográfico de todas as etapas. No trabalho de desobstrução das áreas interna do prédio foi preciso também o corte e a remoção de árvores. Para isso, se utilizou os serviços de profissionais experientes da Embrapa Amazônia Oriental, que desempenharam a função sem danificar os maciços.

Em relação à técnica construtiva, as estruturas de paredes do Murutucu, são constituídas por urna estrutura mista (pedra com argamassa de cal, intercaladas por fileiras ou cacos de tijolo). Também empregava-se o tijolo em vão de portas e janelas. Vale ressaltar ainda a utilização de esteios de madeira no interior das paredes de pedra visando uma maior sustentação desta. Ao que parece, esta técnica remete a uma adaptação de pau a pique, usado na chamada taipa de pilão, na qual se estruturava as paredes com uma malha de madeira entre barro socado.

Em retrospecto, como um resultado bastante significativo podemos considerar a existência de piso nos ambientes, construído em ladrilhos cerâmicos assentados sobre piso de terra compactada. Neste aspecto, foram identificados ladrilhos de pelo menos três diferentes figuras geométricas: o quadrado (26cmx26cmx4cm), retangular (25cmx14cmx4cm) e triangular, ou meio-quadrado (26cmx26cmx4cm), em coloração branca ou vermelha. Vale ressaltar que estavam dispostos também em ambientes diferenciados, o que sugere pelo menos a distinção intencional dos cômodos.

No que diz respeito à descoberta dos materiais construtivos de alicerces e de paredes até então soterradas, curiosamente, registrou-se a ocorrência não apenas de tijolos maciços empregados em conjunto com blocos de arenito, em meio à argamassa, mas notadamente os de perfil em "L", com quatro furos, que provavelmente, estariam apenas empilhados. Foram observadas também paredes divisórias duplas, o que levanta a discussão de possíveis intervenções construtivas na área da casa-grande, para novos arranjos espaciais. A descoberta de paredes e piso possibilitou a definição de um planta provisória, compartimentada em nove ambientes, intercomunicados através de vãos de acesso.

¹Arqueólogo e pesquisador da Coordenação de Ciências Humanas do Museu Paraense Emílio Goeldi.


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