Um pouco mais sobre os vestígios do Murutucu

Lucila Vilar, Agência Museu Goeldi

Agência Museu Goeldi - Criado em 1997 para congregar pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi com foco na investigação da área litorânea na Amazônia, o Programa de Estudos Costeiros – PEC, um dos programas  institucionais de pesquisa do MPEG, se prepara para realizar um seminário interno no período de 5 e 6 de dezembro, no Auditório Paulo Cavalcante, Campus de Pesquisa do Goeldi. E para tanto está convidando todos os pesquisadores da instituição que já trabalham, ou desejam trabalhar, na área costeira.

O século 18, quando frades Carmelitas se estabeleceram em terras belenenses, teve início a ocupação da área que posteriormente foi sede do Engenho Murutucu, com sua casa grande, capela e engenho de açúcar. O Murutucu representa uma grande obra de engenharia rural do século 18 na Amazônia, uma vez que era movido com a força das águas represadas das marés, ação considerada uma inovação tecnológica para a época. O uso das marés como força motriz de engenhos no estuário amazônico foi descoberto em 1988 em pesquisa desenvolvida em conjunto com o pesquisador Scott Anderson.

Do Murutucu, hoje, restam apenas ruínas e lá está sítio arqueológico no que hoje é área da Embrapa Amazônia Oriental. As ruínas são tombadas como patrimônio histórico e cultural da União. O Engenho tem o mesmo nome do igarapé afluente da margem direita do rio Guamá.

Tecnologia de Construção - Para caracterizar os materiais construtivos que compõem as estruturas do Engenho, a bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic/MPEG) Samia Salim Hohlenwerger, estudante de arquitetura da Universidade Federal do Pará (UFPA), desenvolveu estudo na área. Orientada pelo arqueólogo do Museu Goeldi, Fernando Marques, Sâmia desenvolveu pesquisa intitulada “Identificação, Análise e Caracterização de Estruturas Remanescentes em sítios de Engenhos Coloniais Amazônicos: O Engenho Murutucu”.

Segundo apreciação da avaliadora do trabalho durante Seminário do Programa de Iniciação Científica, ocorrido em julho de 2011, Cristiana Nunes Galvão Barros Barreto, do Museu de Arqueologia e Enologia da Universidade de São Paulo, esse tipo de investigação tem valor especial pois pode apontar possibilidades de restauração. A reconstituição dos materiais é essencial para prover de materiais os que reconstituem o patrimônio histórico nacional.

O trabalho realizado por Samia coletou amostras da estrutura da casa grande e da capela do Engenho, onde foram selecionados materiais de construção e submetidos a análises descritivas das peças e fragmentos. Para o trabalho foram utilizadas lupas binoculares e para fins de comparação dos materiais e sistemas construtivos, também foram estudadas amostras provenientes da Casa Rosada, uma das primeiras edificações do Estado do Pará – localizada na Cidade Velha em Belém, e contemporânea ao Engenho.

 

A presença de Landi no Murutucu

Por Fernando Marques

Em 1766, Antonio José Landi, arquiteto italiano, que chegou ao Brasil em 1753 como integrante da comissão de demarcação de limites da Amazônia, adquiriu o engenho Murutucu com “setenta pessoas, entre índios, índias e rapazes nascidos no dito engenho”. Ele foi o precursor do estilo Neoclássico no Brasil, com inúmeros projetos, referências na arquitetura da cidade de Belém, como o Palácio Lauro Sodré, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, Sant'Ana, a Catedral de N.Sra. das Graças, e a capela de São João. Contemporânea à época, é a reforma da Capela do Engenho, à qual o arquiteto incorporou os traços marcantes do Neoclassicismo. Importante mencionar que na Casa Grande foram notados elementos decorativos, como molduras e frisos, similares àqueles presentes em vários prédios de autoria de Landi, em Belém. Em 1780, Landi encontrava dificuldades em obter a mão-de-obra para operar atividades do engenho, como a plantação de um novo canavial, razão pela qual solicitou ao reino a concessão de até 24 índios para suprir as necessidades. Mesmo assim, chegou a produzir açúcar e aguardente, e colocou em atividade uma olaria para fabrico de telhas e tijolos. Documentos recentemente encontrados revelaram que Antonio Landi morreu no seu próprio sítio, em 22 de junho de 1791, deixando o engenho como herança para a filha, Ana Teresa, que se casou com o Capitão João Antônio Rodrigues Martins, filho de João Manuel Rodrigues, proprietário de engenhos como Mocajuba e Utinga.

 


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