Conflito urbano e devastação dos recursos hídricos marcam discussões em Seminário no Goeldi

Evento reúne trabalhos de 50 jovens pesquisadores para as grandes áreas do conhecimento gerado sobre a região amazônica.

Agência Museu Goeldi - Água, conflitos urbanos, arqueologia e linguística. Muitos temas e informação no primeiro dia do Seminário do Programa de Capacitação Institucional (PCI) no Museu Paraense Emilio Goeldi. Esse é só o primeiro de quatro dias de uma agenda com mais de 30 apresentações orais, como frisou a coordenadora do Programa, a linguista Ana Vilacy Galúcio.

Essa é uma oportunidade para conhecer o trabalho dos colegas”, completou o Coordenador de Pesquisas e Pós-Graduação do Museu, Dr. Ulisses Galatti, que na ocasião da abertura do Seminário na tarde de ontem, 28, representou o Diretor da Casa, Dr. Nilson Gabas.

A palestra de abertura foi do professor Antonio Pereira Jr., do Instituto Tecnológico da Amazônia (ITAM) que falou da água desde a sua origem, seus usos e sua condição atual de riqueza ameaçada.
Crescimento populacional e ocupação do solo de forma indiscriminada associadas à má utilização do recurso, constituem fórmula que ameaça os mananciais, seja pela redução da potabilidade por razões de mudanças climáticas ou pela poluição desenfreada.

O envolvimento da sociedade, a educação ambiental e o uso dos meios de comunicação são condições sine qua non para a conservação os recursos hídricos na opinião de Pereira Jr., que também discorreu sobre legislação em particular a Lei 9.433/97 que instaura a Política Nacional de Recursos Hídricos no Brasil.

Na Amazônia, maior reservatório do planeta, o professor alertou para o efeito deletério do sistema de sucção das usinas hidrelétricas, caso particular de Tucurui, no Pará, onde os estoques de peixe são em tempos normais e de desova ameaçados. Até que um sistema de contra-sucção seja instalado, os peixes fêmea ovados perdem, se sugados, a sua capacidade de reprodução e diminuem  em proporção geométrica os estoques.

Da beira d´água vem um conflito marcado por contradições -  Rico e pobre, urbano e rural, tradicional e moderno, sonho e realidade são algumas das dicotomias apontadas em trabalho de Jackson Silva da Silva, um dos jovens pesquisadores do Programa de Capacitação do Goeldi, que estuda o movimento em defesa dos portos públicos na orla de Belém, especialmente àquela onde, hoje a Prefeitura da cidade constrói o chamado Portal da Amazônia.

Processo de intervenção urbana de cunho empresarial e privado, a gentrificação de uma área tradicionalmente ocupada por populações de hábitos ribeirinhos se vê alvo do que o pesquisador denomina de “perversa e anti-popular” ação oficial.

Lançando mão de Marcel Mauss - sociólogo e antropólogo francês nascido no século 19 – como referência teórica, Jackson, estuda a violência contra o “fato social total” no qual se configura a vida ribeirinha numa concepção política, social, econômica, cultural e ambiental abrangente. Alvo de um projeto inexistente e de ações desintegradas, do ponto de vista de execução “esfaceladas” segundo o pesquisador, a vida nos Portos da Palha e do Açaí na orla da Estrada Nova, bairro do Jurunas, em Belém está sendo transfigurada para acolher a urbanização e o uso da área para fins de lazer e turismo excludentes dos que nela habitam há muitas décadas.

Originada no continuum de ilhas e de territórios à beira-rio, a vida nos portos tem uma dinâmica particular com características tão próprias que burlaram o fato de estarem em ambiente citadino adverso ao modus vivendi urbano. Um Movimento de “Portas para o Rio” se contrapõe às iniciativas de abertura de “Janelas para o Rio” como já é conhecida na cidade a iniciativa governamental – observado o jogo político-partidário que se alterna no Estado e no município – e que exclui a população tradicionalmente ocupante da orla, mas que é permissiva com o empresariado que tão estrategicamente se colocou às margens da Baía do Guajará e do rio Guamá para garantir a chegada de materias e o embarque de mercadorias com muito pouca contribuição direta para a preservação da paisagem e  o respeito aos recursos.

A pesquisa de Jackson, orientado peloDr. Rodrigo Peixoto, da Coordenação de Ciências Humanas do Museu Goeldi, integra um projeto maior de instalação de um Observatório de Conflitos Urbanos em convênio com a Universidade Federal do Rio de Janeiro, que no início de 2012, coloca no ar um site  onde estarão informações sobre a iniciativa, além de recursos como mapas de ocupação dessas áreas e discussões acerca das intervenções oficiais.

Ainda no primeiro dia de apresentações no Seminário que prossegue até o dia 1º no auditório Paulo Cavalcante no Campus de Pesquisa do Museu Goeldi, em Belém, apresentaram trabalhos duas bolsistas dedicadas à linha de pesquisa que trata das Dinâmicas socioculturais e ocupação humana na Amazônia. A avaliadora dos trabalhos dessa linha é a Dra. Pascale de Robert, pesquisadora do  Institute de Rechercehe pour le Développement (IRD) da França.

Figura humana e preservação de línguas indígenas - Hannah Nascimento apresentou estudo da figura humana que desenvolve dentre as peças da coleção arqueológica do Museu Goeldi, em particular às peças da Cultura Tapajônica oriundas de Monte Alegre, num primeiro momento, e de Santarém, numa etapa posterior. Orientada pela arqueóloga Edithe Pereira, Hannah estuda os itens de Coleções formadas entre outros por Frederico Barata e Peter Hilbert, contribuintes da formação dos acervos hoje sob a guarde do Museu. Ela identificou 32 representações humanas e confirma a influência da Cultura Tapajônica na área do hoje município de Monte Alegre. Do trabalho de Hannah, constará um glossário de termos que ajudará àqueles que não são da área a compreender melhor do que trata a investigação.

Dentro do projeto “Documentação e Estudo da Língua Arara”, Ana Carolina Alves, orientada pela Dra. Ana Vilacy, coletou depoimentos, fez registros em áudio e vídeo de falantes da língua em três aldeias diferentes. O material compõe Acervo Digital Permanente do Programa de Documentação de Línguas e Culturas Indígenas, mantido no Museu Goeldi, cujo site deverá estar pronto em 2012.

Um diagnóstico sociolinguístico e um sistema fonológico ampliado da língua Arara aumentam o conhecimento sobre a cultura desse povo numa pesquisa contínua e que requer análise mais refinada já que a língua apresenta nível de sofisticação onde o pronome pessoal da 1a. Pessoa do plural da língua portuguesa - o Nós - , para o idioma Arara se sub-divide em três distintos pronomes que determinam categorias mais apuradas de sujeitos falantes.

Serviço

Seminário do Programa de Capacitação Institucional do Museu Goeldi prossegue até o dia 1º no Auditório Paulo Cavalcante, no Campus de Pesquisa, à Av. Perimetral,1901, em Belém, com apresentações sistemas naturais e diversidade biológica e comunicação da ciência na Amazônia.

Texto: Jimena Felipe Beltrão

 

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