Diversidade de abordagem nos estudos de arqueologia
Valorizar acervos e investigar coleções, revela tendência para as pesquisas sobre ocupação humana na Amazônia
Agência Museu Goeldi - “Trabalhar em pedaços para entender o todo” com essa fala, Caroline Fernandes Caromano, bolsista de Capacitação Institucional da Arqueologia do Museu Paraense Emilio Goeldi, sintetiza o trabalho de análise da ocupação humana na região. Fragmentos botânicos, fragmentos cerâmicos, recortes de solos de terra preta arqueológica são apenas alguns dos pontos de partida de estudos das dinâmicas socioculturais observadas a eras passadas na vida da região amazônica.
De 22 sítios identificados na área do Projeto Salobo, na região de Carajás no sudeste do Pará, quatro foram selecionados para a análise de vestígios de sementes e frutos carbonizados. Um dos eixos de análise da Arqueologia, a Arqueobotânica utilizou a carpoteca – coleção de sementes - do Museu Goeldi e identificou um primeiro conjunto de dados sobre o uso de plantas pelas populações da região no passado.
Estudos integrados - O que o Museu Paraense Emilio Goeldi faz sobre a Arqueologia da Amazônia na atualidade é o que destaca a Coordenadora do Programa de Capacitação Institucional (PCI), Ana Vilacy Galúcio. Com pesquisas sobre solos, cerâmica, líticos, arte rupestre e arqueobotânica, os bolsistas renovam a investigação na área, valorizando o que está sob a guarda da Instituição.
Trabalhar com as coleções, organizando-as e estudando-as, é uma orientação do Programa de Capacitação Institucional (PCI). Nesse espírito, dedicou-se a bolsista Elisangela Oliveira, a organizar e estudar o material coletado durante o Projeto Salgado, à época (entre o final dos anos 60 e o início dos anos 70) coordenado por Mário Simões, pioneiro da Arqueologia no Museu Goeldi. O estudo também permitiu a organização do acervo documental e contribui para o melhor entendimento de antiga indústria cerâmica encontrada nos sítios Porto da Mina e Ponta de Pedras no litoral amazônico.
De curta ou de longa duração, as pesquisas contribuem para demonstrar a relação entre as diversas áreas de conhecimento. A relação da Arqueologia com outras áreas é o caso do trabalho de autoria de João Aires que reúne arqueologia, história, antropologia e geologia para construir a contextualização do material lítico encontrado entre itens de prestígio, objetos pertencentes a um complexo sistema de representações culturais que representam poder político e econômico.
Com características integradas, vem também a contribuição de Leandro Matthews Cascon que estuda microvestígios vegetais em sítios arqueológicos na região do projeto Salobo, no sudeste do Pará. Nesse caso, elementos arqueológicos analisados em associação à botânica, “Mais de 100 fitólitos de palmeira foram identificados, o que aponta para um possível uso de folhas de palmeira para assar alimentos ou de coquinhos como combustível para fogueiras”. No estudo, Leandro aponta ainda que um grão de amido de milho pode ser sugestivo de seu uso na produção de alimentos.
Esse seria o momento para a concretização de um Programa Integrado de Ciências Humanas no Museu Goeldi que viria como um conjunto de contribuições para expandir a compreensão da ocupação humana na região, diz a coordenadora do PCI, a linguista Ana Vilacy.
A integração da Arqueologia com a Linguística e com a Antropologia também se evidencia em muitas oportunidades, como em trabalhos como o de Hannah Fernandes, que estuda figuras humanas em itens da coleção arqueológia; e de Ana Carolina Fernandes que, com suas coletas de depoimentos e registros em áudio e vídeo, aumenta o acervo, diversifica o acervo e avança no conhecimento linguístico de elementos da cultura do povo Arara.
Mais uma forma de abordar a arqueologia numa proposta integrada é arqueologia de paisagem que trabalha com a ecologia histórica em investigação de autoria de Morgan Schmidt. Ele estuda feições visíveis na topografia de sítios da Amazônia Central e Trombetas,onde, recentemente, foram detectadas modificações reveladoras de caminhos antigos e de vestígios de terra preta – indicativa de áreas de valor arqueológico. Para Morgan, o mapeamento dessas áreas pode representar oportunidade inédita de até fornecer estimativas de população para assentamentos pré-históricos na Amazônia.
Esses e outros trabalhos estão sendo apresentados no Seminário de Capacitação Institucional do Museu Goeldi , que prossegue até a quinta-feira, dia 1º, no Auditório Paulo Cavalcante do Campus de Pesquisa, à Av. Perimetral, 1901,em Belém.
Texto: Jimena Felipe Beltrão
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