Museu Goeldi – um símbolo da modernidade na Amazônia
Em visita ao Museu Goeldi, o crítico de arte Paulo Herkenhoff percorre coleções científicas, conversa com pesquisadores e explica a modernidade da região pelo olhar das artes plásticas
Agência Museu Goeldi – Investigando dados para organizar a exposição “Amazônia, ciclos de modernidade”, que será exibida durante a Conferência Rio+20, em junho, o curador e crítico de arte Paulo Herkenhoff visitou o Museu Paraense Emílio Goeldi - MPEG na última sexta-feira, dia 13. Recebido pelo Dr. Nelson Sanjad, historiador e coordenador de Comunicação e Extensão, pela arqueóloga Dra. Vera Guapindaia e por Suzana Primo, especialista da Coordenação de Ciências Humanas, Herkenhoff conheceu as coleções etnográfica e arqueológica do MPEG e declarou ao final: “aqui está a alma mais profunda do Brasil”.
Antes de visitar o acervo institucional, Paulo Herkenhoff, acompanhado de Maria Clara Rodrigues, da Imago Escritório de Arte, que produz a exposição, e do Dr. Orlando Maneschy, professor da Universidade Federal do Pará, fotógrafo paraense e um dos curadores do Salão Arte Pará, conversou sobre a proposta da exposição com Nelson Sanjad e Vera Guapindaia.
Ciclos de modernidade – Segundo Herkenhoff, a exposição que será montada no Centro Cultural do Banco do Brasil no Rio de Janeiro, apresenta 3 ciclos da história da Amazônia, um período que cobre desde o século XVIII até hoje. O primeiro ciclo, chamado de 1ª modernidade, é caracterizado pela política do Marquês de Pombal para as colônias lusitanas na América do Sul. Neste período, Paulo destaca também a contribuição de Alexandre Rodrigues Ferreira – naturalista brasileiro, empossado por D. Maria I, que, iniciando em 1783, realizou durante nove anos expedições pela região Norte-Centro do Brasil, com foco principal na Amazônia, deixando um precioso registro da história natural e etnográfica.
O segundo período consiste na Era da Borracha, explica Herkenhoff. Nesse período, a riqueza econômica promove a urbanização e crescimento de grandes centros, como Belém e Manaus. “O capital acumulado com a Borracha significa um projeto de cultura, que passa pelos teatros, pela urbanização, pelo gosto pela arte, etc. Mas, considerando que, talvez, o exemplo mais bem sucedido de modernidade e projeto de modernidade tenha sido o Museu Goeldi, isso se daria não só pelo caráter antecipado do Museu Goeldi com relação a outros museus que pudessem ser comparados no Brasil, indicando que a singularidade da modernidade amazônica sempre passou pelo conhecimento científico”, afirma Paulo.
Já o terceiro ciclo abrange o fim da Guerra Fria até os dias de hoje. Herkenhoff destaca desse período “o modo como a ciência (Arquelogia, Antropologia) se cruza com o desenvolvimento da sociedade”.
Modernidade amazônica - Entretanto, o que exatamente significa modernidade para a sociedade amazônica? Na visão de Paulo Herkenhoff, “significa busca de possibilidade de auto-sustentabilidade, possibilidade de maior justiça social, numa sociedade onde os avanços do capital são extremamente deficitários nos termos morais, nos termos éticos. Existe a escravidão, os massacres, etc., de modo que não podemos ver isto como progresso, mas uma crise do capital e do modo como o capital se expande. Creio que as instituições e pesquisadores e lutas empreendidas na região amazônica são lutas que tratam do próprio destino da humanidade, enquanto busca de possibilidade de convivência, busca de solução de contradições e, sobretudo, busca de emancipação”, sustenta Herkenhoff.
Sobre a exposição “Amazônia, ciclos de modernidade”, Paulo explica que ela é estritamente ligada às artes visuais, às artes plásticas. “Que olhar se constitui inicialmente sobre a Amazônia e, depois, como a Amazônia assume o seu próprio olhar? Na Amazônia, cidades como Belém, Manaus e outros centros urbanos têm um desejo de cultura visual, desejo de arquitetura, um inconsciente plástico, um inconsciente visual. No final do século XX e início do século XXI, [a Amazônia] também assume essa condição de singularidade, que é ser um espaço como lugar, com uma memória própria, um espaço com valores próprios, um espaço com indivíduos que vivem uma experiência específica, que desejam estar juntos de acordo com ‘tal’ e ‘tal’ pacto social. Extrair essas questões próprias dessa região não é uma busca do regionalismo, mas é a busca de como um olhar amazônico se faz como processo de cultura. Cultura visual, que é processo de conhecimento, que é processo do sensível, que é processo do simbólico e que produz sentidos, produz significados, que é preciso também extrair”, explica o curador.
Paulo também dá detalhes dos objetivos da exposição: “O valor da exposição é de buscar não uma totalidade, até por que ninguém tem condições de fazer uma totalização do que seja Amazônia, quem vive aqui sabe muito bem disso. Mas, sim, buscar constituir uma certa rede de olhares que criem caminhos, que abram perspectivas e, ao mesmo tempo, seja um espaço de convergência de pesquisadores, de saberes diferentes, etc.”.
Museu Goeldi - Herkenhoff, por final, deixa sua opinião sobre a visita e as coleções do Museu. “Apenas corroboro o que todos acham. O Museu é espetacular. O Museu Goeldi é um dos centros básicos da cultura do País. Aqui está a alma mais profunda do Brasil”, conclui o crítico.
Paulo Herkenhoff já foi diretor do Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro, curador da Fundação Eva Klabin Rapaport, consultor da Coleção Cisneros (Caracas, Venezuela) e da IX Documenta de Kassel, curador adjunto do Departamento de Pintura e Escultura do Museu de Arte Moderna de Nova York e também curador-chefe do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e do Salão Arte Pará.
Entre sua produção bibliográfica destacam-se: "José Oiticica Filho". Rio de Janeiro, INAP / FUNARTE, pp.10-20, 1993, "The Contemporary Art of Brazil: Theoretical Constructs" in Ultramodern. Washington, DC, EUA, The National Museum of Women in the Arts. 1993, "Emmanuel Nassar, entre o Silêncio e o Simples" in Emmanuel Nassar, Veneza, XLV Bienal Internacional de Veneza., "The Theme of Crisis in Contemporary Latin American Art" in Latin American Artists of the Twentieth Century, New York, The Museum of Modern Art, pp. 134-143, 1993 e “Louise Bourgeois, Arquitetura e Salto Alto”. XXIII Bienal de São Paulo. Catálogo das Salas Especiais, 1996.
A exposição “Amazônia, ciclos de modernidade”, sob os cuidados de Paulo Herkenhoff, está programada para iniciar no dia 14 de maio, no Centro Cultural Banco do Brasil. Ela se estende até junho, durante a realização da Conferência Rio+20 para o Desenvolvimento Sustentável.
Assista a entrevista completa do crítico Herkenhoff: