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A força e as limitações das florestas secundárias

Artigo de rede internacional de pesquisadores da América Latina, Estados Unidos e Europa alerta nesta semana sobre a capacidade e importância das florestas secundárias na conservação da biodiversidade. Os dados com estudos sobre árvores apontam que, em duas décadas, uma floresta alterada em processo de regeneração recupera até 80% da antiga abundância numérica de espécies. Todavia, pode levar séculos para recuperar a composição original de espécies encontradas nas florestas nativas, com o grande risco de que isso jamais ocorra.
publicado: 07/03/2019 19h00 última modificação: 13/03/2019 15h31

Agência Museu Goeldi – As florestas tropicais abrigam mais de 53 mil espécies de árvores, o que representa 96% da diversidade de árvores do planeta. Distribuída por oito países, incluindo o Brasil, a maior do mundo é a floresta amazônica. Essas florestas hiperdiversas estão ameaçadas pelas altas taxas de desmatamento, consequência principalmente da expansão agropecuária.

Quando se abandona um pasto ou cultivo agrícola, rapidamente o espaço é colonizado pela floresta, que se regenera naturalmente – são as chamadas florestas secundárias. Especialistas em ecologia do Brasil e exterior se debruçaram na missão de responder a seguinte questão: as florestas secundárias podem ajudar a reverter a perda de espécies e trazer de volta as espécies nativas?

Regeneração das espécies Essa rede internacional de pesquisadores publicou nesta semana, na revista Science Advances, um estudo sobre o papel das florestas secundárias na conservação da diversidade de árvores tropicais. Foram inventariadas as árvores de 1,8 mil parcelas, que são áreas permanentemente demarcadas nas florestas. As árvores estão distribuídas em 56 áreas de estudo, localizadas em 10 países da América Latina.

Os cientistas compararam os dados da pesquisa de campo em florestas secundárias de diferentes idades com os dados coletados em florestas maduras bastante conservadas. A pesquisa mostrou que o número de espécies, ou seja, a riqueza das espécies de árvores nos fragmentos de florestas regenerantes se recupera em poucas décadas. No entanto, a composição das espécies pode demorar séculos para se assemelhar às florestas maduras originais ou, até mesmo, nunca se recuperar.Infográfico.png

“Ficamos impressionados ao descobrir que pode levar apenas cinco décadas para se recuperar a riqueza de espécies que, normalmente, é encontrada em florestas maduras bem preservadas. Em apenas 20 anos de regeneração, 80% do número de espécies já está presente. Este resultado enfatiza a importância das florestas secundárias para a conservação da biodiversidade em paisagens modificadas pelo homem”, destaca a pesquisadora da Universidade de Wageningen (Holanda) e líder do estudo, Dra. Danaë Rozendaal.

Apesar da rápida recuperação do número de espécies, o estudo mostra ainda que as espécies de árvores encontradas nas florestas regenerantes são, normalmente, diferentes daquelas encontradas nas florestas maduras adjacentes. Depois de 20 anos de regeneração, apenas 34% das espécies são as mesmas encontradas nas florestas maduras. Portanto, pode demorar séculos para que as florestas secundárias recuperem as mesmas espécies da floresta original, se isso realmente chegar a acontecer.

O coordenador da rede de pesquisa 2ndFOR, Dr. Lourens Poorter, acrescenta que “ainda que as florestas secundárias jovens tenham papel importante na conservação de espécies em paisagens modificadas pelo homem, elas não abrigam muitas das espécies encontradas nas florestas maduras bem conservadas”. O pesquisador recomenda que tanto as florestas secundárias, quanto as maduras, sejam preservadas para garantir a conservação da biodiversidade nessas paisagens modificadas pelas ações antrópicas.

Esse estudo tem implicações diretas para políticas públicas e para a prática da restauração florestal. A regeneração natural tem sido vista como uma forma ecologicamente eficiente de se recuperar grandes extensões de florestas, tendo um custo menor do que o plantio de mudas. A regeneração natural pode ser o método ideal para se atingir as metas de restaurar 350 milhões de hectares de florestas até 2030, como foi definido no acordo internacional Bonn Challenge.

“Essa tendência já vem sendo observada no leste do Pará por nossa equipe de pesquisa do Museu Goeldi, o que tem nos auxiliado na priorização de áreas para restauração. Como as florestas secundárias estão se expandindo na Amazônia, enfatizamos que essa floresta deve ser levada em conta ao planejar a conservação da biodiversidade na região mais antropizada da Amazônia”, ressalta Dra. Ima Célia Vieira, pesquisadora e ex-diretora do Museu Goeldi, uma das co-autoras do estudo.

Florestas secundárias – São florestas que regeneram naturalmente após a remoção da floresta original para uso do homem – a exemplo dos cultivos agrícolas, pastagens e agricultura de corte e queima. Atualmente, mais da metade das florestas tropicais do mundo não são florestas maduras bem conservadas e, sim, florestas secundárias em processo de regeneração. Na América Latina, tais florestas cobrem 28% da zona tropical.

2ndFOR – É uma rede colaborativa em florestas secundárias que envolve 85 pesquisadores de 16 países, tendo como foco o estudo da ecologia, dinâmica e biodiversidade das florestas secundárias tropicais. Além disso, busca compreender os serviços ambientais que elas proveem em paisagens modificadas pelo homem. A rede é coordenada pelos cientistas Dr. Lourens Poorter, Dr. Frans Bongers e Dra. Danaë Rozendaal, da Universidade de Wageningen.

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