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Agência de Notícias

150 anos de trabalho sobre contextos funerários amazônicos

Museu Goeldi guarda maior acervo de restos humanos e objetos funerários arqueológicos do Norte e Nordeste do Brasil. Durante conferência em Portugal, a arqueóloga Claudia Cunha aborda pesquisas que estão desvendando informações sobre hábitos e a biologia de antigos habitantes da Amazônia
publicado: 20/12/2016 14h30, última modificação: 04/04/2018 13h02

Agência Museu Goeldi - “Museu Paraense Emílio Goeldi - 150 anos de trabalho sobre contextos funerários amazônicos” é o tema da conferência que será apresentada pela Dra. Claudia Cunha (bolsista do Programa de Capacitação Institucional do MPEG/MCTIC) na próxima quinta-feira (22). O evento é parte do Ciclo de Conferências do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde da Universidade de Coimbra (Portugal) e acontece às 10h (horário local).

Destaque para igreja do Rosário dos Homens brancos, mapa de Belém em 1753O objetivo da apresentação da pesquisadora é compartilhar resultados iniciais de estudos paleobiológicos realizados em restos humanos pertencentes às coleções da Coordenação de Ciências Humanas do Museu Goeldi.

Desde 2015, a Dra. Claudia Cunha tem se dedicado ao estudo de peças do maior acervo de restos humanos e objetos funerários arqueológicos do Norte e Nordeste do Brasil, depositado no Museu Paraense Emílio Goeldi.

Resultados - Como resultado de suas pesquisas, está sendo feito o primeiro inventário completo de restos humanos do acervo da Reserva Técnica Mário Simões Ferreira/MPEG, que abriga uma grande quantidade de materiais, a maioria deles inéditos, fruto de investigações científicas realizadas pela insituição desde o século XIX até agora.

Entre os vários casos estudados, dois inéditos chamam a atenção: um caso recém publicado mostrando que em Belém, no século XVII, a população da elite tinha acesso a tratamentos de saúde oral que misturavam técnicas e ferramentas europeias e fármacos de origem vegetal indígenas. Esta é a primeira evidência deste tipo de tratamento para a Amazônia Brasileira.

O estudo foi feito a partir de restos mortais de um indivíduo do sexo feminino encontrado em sítio arqueológico em frente à igreja do Carmo, na Cidade Velha, em Belém. O esqueleto é datado do século XVII e permanece resguardado no Museu Goeldi. Os restos foram encontrados nas fundações do que um dia foi a Igreja do Rosário dos Homens Brancos, demolida na década de 1930, e onde atualmente se encontra a praça do Carmo, na capital paraense.

Maxilar com molares tratados com ferramentas europeias e fármacos indígenasOutro caso de estudo em andamento é o do primeiro caso registrado de câncer do palato num indivíduo indígena pré-colonial da Amazônia. Trata-se de um homem adulto ameríndio marajoara, provavelmente pertencente à elite local do período.

Fronteira - A Antropologia Biológica ou Bioarqueologia é a área do conhecimento que trata do estudo de aspectos biológicos de materiais e contextos arqueológicos. Aspectos como a evolução, a doença no passado (paleopatologia), as características físicas das pessoas (morfologia, robustez), mas também os rituais funerários são focos da Bioarqueologia. No caso da Dra. Claudia Cunha, sua especialidade é a Antropologia Dentária e em particular questões de paleopatologia, parentesco e afinidade biológica observados nos dentes.

“A depender do estado de conservação dos restos humanos e das metodologias aplicadas, a Antropologia Biológica tenta responder questões sobre como eram fisicamente estas pessoas; que tipo de alimentação ingeriam; quais seus problemas de saúde; qual era afinidade biológica (parentesco) entre as pessoas de um mesmo grupo ou entre grupos diferentes; como seus membros eram tratados após a morte, etc.”, explica a Dra. Claudia Cunha.

De acordo com a pesquisadora, os estudos bioantropológicos de populações do passado, em questões como a afinidade biológica, servem para resgatar a história populacional de uma região. Claudia diz que as populações ameríndias são um bom exemplo dessa importância. “Sua história foi até poucas décadas escondida e apagada pela historiografia oficial. Não sabemos exatamente como estes grupos chegaram aqui e através de quais rotas de colonização, também não sabemos qual o seu grau de proximidade com populações arqueológicas de outras partes do Brasil. Meu estudo dedica-se a responder estas e outras perguntas”.

Texto: Uriel Pinho