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Estudo revela a rica diversidade das serpentes nas Américas

Tendo por base coleções científicas diversas e os acervos de museus de história natural, pesquisadores organizam uma extensa base de dados e um quadro mais completo da riqueza da fauna das serpentes neotropicais. A base de dados internacional reúne informações coletadas desde o século XIX e evidencia a importância de áreas abertas, como o Cerrado e a Caatinga, e a necessidade de ampliar o conhecimento sobre a Amazônia.
publicado: 10/01/2018 13h15, última modificação: 29/01/2018 11h57
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Cobra Sucuri

Agência Museu Goeldi – Dados provenientes de 27 países, com testemunhos preservados em museus de história e coleções científicas diversas, permitiram recompor informações sobre 886 espécies de um grupo animal presente nas culturas ao redor do mundo desde o início da história da humanidade na Terra – as serpentes. O desafio foi realizado por um time internacional de especialistas do Brasil, Alemanha, Austrália, Equador, Estados Unidos e Suécia. Eles organizaram informações antigas e recentes sobre as serpentes das Américas do Sul e Central, Caribe e o sul do México e Flórida (EUA). O estudo foi publicado na revista Global Ecology and Biogeography.

Imagem da jiboia (Boa constrictor), uma das espécies mais populares da AmazôniaEm torno de 10.500 espécies de répteis são encontradas ao redor do mundo e cerca de 150 a 200 novas espécies são descobertas a cada ano. As serpentes constituem aproximadamente 34% desse grupo de animais. Pela primeira vez, os pesquisadores organizaram em um mesmo banco de dados fatores como: registros coletados, padrões detalhados de distribuição e frequência de ocorrência de 147.515 indivíduos, pertencentes a 886 espécies distribuídas em 12 famílias. Os dados reunidos servirão de base para a aplicação de conceitos de conservação, formulação de modelos de biodiversidade e evolução, e também para elaborar agendas de pesquisa na área da herpetologia.

Brasil - A análise dos dados sobre o Brasil, mostraram que as espécies de serpentes de áreas abertas como o Cerrado e Caatinga são altamente diversas, e evidenciaram uma enorme lacuna de informação – a Amazônia. O vazio de informação na região é alterado onde existem instituições de pesquisas sólidas, como é caso do sesquicentenário Museu Paraense Emílio Goeldi. Atualmente, a coleção do Goeldi inclui cerca de 100 mil indivíduos ou espécimes representantes, principamente, na Amazônia brasileira. Esse número cresce cerca de 10% ao ano.

O Brasil é um dos países da região Neotropical que registra a maior diversidade de répteis – até agora, por exemplo,  a ciência já identificou 392 espécies de serpentes (147 na Amazônia), 266 espécies de lagartos, 73 de anfisbenas, 36 de quelônios e seis espécies de jacarés.

“Assumimos que ainda existem muitas espécies de serpentes que não conhecemos. Entretanto, a identificação de áreas pobremente amostradas, onde provavelmente novas espécies podem ser encontradas, deve vir de uma síntese de dados e mapeamento do que já conhecemos em termos de espécies e das áreas nas quais temos amostras consideráveis”, ressalta Dra. Thaís Guedes, da Universidade de Gotemburgo (Suécia), autora principal do artigo.

Imagem da serpente Xenopholis scalaris Curadora da Coleção de Herpetologia do Museu Goeldi e uma das autoras do estudo, Dra. Ana Prudente, destaca que a escassez de dados na Amazônia é resultado de um conjunto de fatores, como: baixos investimentos em pesquisa no bioma, dificuldades de acesso das áreas que precisam ser amostradas e falta de especialistas para estudar essa enorme área.

Parceria internacional – O grupo de cientistas coletou dados de todas as serpentes neotropicais para registrar a diversidade das espécies, sua distribuição e suas ameaças na região Neotropical. O enorme conjunto de informações é resultado de uma fusão de dados coletados por vários taxonomistas ao longo de, pelo menos, 150 anos. “Publicamos um dos maiores e mais detalhados levantamentos sobre a distribuição de serpentes. Um grande avanço no conhecimento de um dos grupos de répteis mais ricos em espécies do mundo!”, festeja o Dr. Alexandre Antonelli, da Universidade de Gotemburgo.

Dr. Martin Jansen, do Senckenberg Research Institute Frankfurt (Alemanha), chama a atenção para a qualidade dos dados, que passaram por uma rigorosa revisão taxonomica. “A revisão aumentou bastante a qualidade dos dados. Pode-se dizer que o banco de dados agora tem uma espécie de marca de qualidade. Isto é muito importante, já que os estudos com modelelagem da biodiversidade muitas vezes não trazem essa experiência taxonômica profunda”, afirma Jansen.

Proteção – Os resultados dessa base de dados mais abrangente e inovadora também destacam a necessidade de melhor amostra, exploração científica e proteção de áreas de alta diversidade, assim como de espécies raras. Segundo Thaís Guedes, as áreas abertas do Brasil, como o Cerrado e a Caatinga, sempre foram negligenciadas de várias formas incluindo o fato de que recebiam menos incentivo à pesquisa e eram pouco contempladas em ações de conservação. Contudo, estudos recentes e esse novo mapeamento mostraram, que essas áreas são altamente diversas e tem papel importante na composição da biodiversidade brasileira. 

O conhecimento da distribuição das espécies também fornece informações que podem ser aplicadas a outras áreas da biologia, como por exemplo na reprodução animal, ressalta Dr. Henrique Braz, da Universidade de Sidney (Austrália). “Em uma região tão ampla e de clima diverso como é a região Neotropical uma mesma espécie com ampla distribuição pode apresentar estratégias reprodutivas distintas de acordo com os ambientes que ocupam. Dados de distribuição associados a dados reprodutivos são uma excelente ferramenta em estratégias de conservação”, complementa Braz.

 

Texto: Universidade de Gotemburgo com colaboração da Agência Museu Goeldi