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Inovações a serviço do desenvolvimento social

Museu Goeldi apresenta cinco projetos de inovação tecnológica no ITT Amazônia. Tecnologias que propõe soluções práticas para problemas do cotidiano e melhorias em setores produtivos
publicado: 03/12/2014 11h30, última modificação: 03/01/2018 15h38

Agência Museu Goeldi - Como capturar mosquitos para estudo e prevenção de doenças sem receber as incômodas “picadas”? Qual o momento ideal para pescar a piramutaba, respeitando o período reprodutivo da espécie? E como transformar os resíduos sólidos que produzimos em material para enriquecer o solo? Estas são algumas das questões práticas respondidas por projetos de inovação tecnológica do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), expostos desde a última terça-feira (2) no I Encontro Internacional de Inovação e Transferência de Tecnologia da Amazônia Oriental – ITT Amazônia, em Belém do Pará. 

O evento internacional, que acontece na Federação das Indústrias do Pará (FIEPA), reúne as principais instituições científicas da região com o público em geral e o empresariado, em um momento de troca de experiências e apresentação das tecnologias disponíveis para a realização de negócios futuros. Na terça-feira (2) e  hoje (3), o Museu Goeldi exibe cinco produtos tecnológicos que propõem soluções aplicáveis à sociedade e de grande valor para setores estratégicos da economia, como o pesqueiro e o farmacêutico. Conheça, a seguir, quais são esses projetos: 

Processo de Extração do Princípio Ativo Poliprenóis Naturais Concentrado A Partir da Montrichardia linifera

A matéria-prima dessa tecnologia vem de uma planta que margeia rios e igarapés da Amazônia. Da popular aninga ou aninga-açú (Montrichardia linifera) é obtida uma mistura de substâncias pertencentes à classe dos poliprenóis. Na Rússia, o uso dos poliprenóis como medicamentos contra doenças do fígado é estudado há décadas e, nos últimos anos, pesquisas em animais têm apontado sua eficácia no tratamento e redução de sintomas de males hepáticos e neurológicos, como o Alzheimer e a depressão.

Já bastante usada como cicatrizante, em forma de chá, pelos povos tradicionais da região, a aninga é uma fonte promissora de extração em larga escala de poliprenóis, devido à robusta extensão de suas folhas, que medem em média 44 cm de largura x 52 cm de comprimento. A tecnologia, de autoria da engenheira química do Museu Goeldi, Dra. Cristine Amarante, envolve o processo de extração dessas substâncias, aproveitando ao máximo o potencial da planta.

Processo de Transformação de Resíduos Sólidos em Composto Orgânico

A tecnologia projetada pela geoarqueóloga do Museu Goeldi, Dra. Dirse Kern, foca em um dos principais problemas dos grandes centros urbanos: que destino dar à crescente quantidade de resíduos sólidos produzidos por nós diariamente? O serviço de inovação da pesquisadora converte esses restos em material orgânico de alta fertilidade para adubar o solo.

O projeto baseou-se em pesquisas realizadas com as Terras Pretas Arqueológicas - TPAs (também chamadas de Terras Pretas de índios ou simplesmente Terras Pretas). Esses solos, de origem ancestral, possuem coloração escura, resultante da decomposição de material orgânico, como resíduos de peixes, conchas, dejetos humanos, entre outros compostos, o que torna sua fertilidade superior aos solos vizinhos. 

Equipamento para Captura de Inseto Da Família Culicidae

Uma grande dificuldade de quem trabalha com vigilância de epidemias transmitidas por mosquitos é fazer a coleta sem antes experimentar a ferroada dos animais, e junto com ela a coceira e o risco de infecção. O entomólogo do Museu Goeldi, Dr. Inocêncio Gorayeb, idealizou uma armadilha que possibilita o recolhimento desses insetos, da família Culicidae, a partir de uma “isca” humana, impedindo, contudo, que elas sejam picadas. “A pessoa (isca) fica dentro da armadilha, mas os insetos são afastados dela por um mosquiteiro. Ao mesmo tempo um ventilador é ligado e empurra de baixo para cima os mosquitos e para dentro de um coletor”, explica o inventor.

Existe também uma variação deste aparato que não conta com a presença humana, que é substituída por atrativos químicos como Gás Carbônico (CO2) e Octenol (1-octen-3-ol). Atualmente, não há tecnologia semelhante no mercado que garanta esse tipo de segurança aos profissionais de captura de insetos hematófagos. 

A Pesca dos Grandes Bagres Amazônicos: A Piramutaba

Conhecido peixe de água doce da região amazônica, a piramutaba realiza um grande percurso para se reproduzir, atravessando milhares de quilômetros por todo Rio Amazonas, da foz até a cidade de Iquitos, no Peru.

Durante o ITT Amazônia, uma animação eletrônica ilustra essa viagem e a eficiência da adoção de medidas de ordenamento pesqueiro baseadas em conhecimento científico gerado pelo projeto de autoria do biólogo do Museu Goeldi, Dr. Ronaldo Barthem.

Os dados de pesquisas acumulados pela instituição podem auxiliar as indústrias pesqueiras sobre o melhor momento e local de captura da piramutaba. A pesca do animal em um momento indevido pode comprometer a sustentabilidade da atividade econômica e, principalmente, a existência da espécie.

Segundo Barthem, a pesquisa ajuda a focar quais os impactos que os recursos pesqueiros sofrem, indicando as medidas que os gestores devem tomar e quais os métodos que os usuários devem usar para que não se esgote estes recursos, garantindo a sustentabilidade da exploração. “A pesquisa identificou que a solução está ligada tanto à gestão pública, neste caso através do IBAMA, que pode oferecer regulamentações mais adequadas, quanto às indústrias, que a pesquisa subsidia com técnicas e métodos que podem minimizar o impacto e garantir a sustentabilidade da exploração”, explica o biólogo. 

Programa Floresta Modelo de Caxiuanã

A Tecnologia Social Programa Floresta Modelo de Caxiuanã foi testada com sucesso no Nordeste Paraense. Seguindo o referido modelo, foi implementado na Vila de Santana do Capim/Aurora do Pará o Espaço Aprender e Sonhar, inspirado no trabalho e no sucesso alcançado junto aos professores e alunos da Flona de Caxiuanã, no Marajó.

O programa é composto por oficinas, mini cursos, atividades de arte-educação, técnicas direcionadas, caminhadas em trilhas, madrugada ecológica, estudos dirigidos, sessões de vídeos, teatro, jogral, fantoche, oficinas de produção de brinquedos com materiais recicláveis, palestras, dinâmicas de grupo e saraus musicais. A tecnologia pode ser aplicada nas áreas de educação, meio ambiente e saúde, em  escolas, prefeituras, ONGs e associações interessadas em trabalhar a metodologia. 

Vitrine Tecnológica – Além das cinco tecnologias acima, cerca de 25 produtos e serviços tecnológicos de 12 instituições convidadas estão expostos na “Vitrine Tecnológica”, um espaço de apresentação de projetos desenvolvidos na região disponíveis para transferência à sociedade. As visitas são gratuitas e abertas ao público. 

Inovação e reinvenção – Durante a abertura do ITT Amazônia, na última terça-feira (02), Nilson Gabas Jr., diretor do Museu Goeldi, falou sobre a necessidade de se reinventar as instituições de pesquisa, pois as demandas sociais se multiplicam. “Este evento é muito importante para a sensibilização do empresariado e as instituições científicas para entender as demandas sociais. É impossível fazer inovações em saber o que a sociedade precisa”, completou o diretor.  

Para o representante do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Kayo Júlio Cesar, os arranjos da Amazônia tem uma contribuição estratégica no sentido de inserir as instituições de ciência e tecnologia regionais no cenário nacional da inovação. “A Amazônia é uma região em profunda transformação e vive um processo de desenvolvimento científico já bastante avançado, mas que ainda precisa avançar no ponto de vista da geração de invenções e de propriedade intelectual. Os arranjos são fundamentais neste contexto no sentido de chegar aos lugares mais longínquos, nas instituições que tem menos condições de trabalhar com isso e fornecer assistência técnica pra gerar produtos novos capazes de dar conta da necessidade de desenvolvimento sustentável da região”, completa.

Na opinião de Kayo, o evento representa um marco na questão da inovação e incentivo científico e tecnológico e a Rede Namor, arranjo de NIT’s de 12 instituições da Amazônia Oriental, coordenada pelo Museu Goeldi, tem animado muito e promovido diversos intercâmbios com o setor empresarial e gerado resultados muito significativos.

Serviço:

I Encontro Internacional de Inovação e Transferência de Tecnologia da Amazônia Oriental – ITT Amazônia

Data: 02 e 03 de dezembro
Local: FIEPA - Federação das Indústrias do Estado do Pará (Tv. Quintino Bocaiúva, 1588, Nazaré, Belém/PA)

Texto: João Cunha e Brunella Velloso

Galeria de Imagens: