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Mulheres na ciência: conquistas e desafios

Um olhar sobre a relação de gênero no exercício da ciência indica que o número de mulheres pesquisadoras tem se aproximado ao dos homens, mas, com desequilíbrios entre as áreas de estudo. A construção de políticas públicas e ações para atender necessidades específicas das pesquisadoras têm capacidade de contribuir com os esforços empreendidos pelas mulheres.
publicado: 08/03/2019 18h33 última modificação: 09/03/2019 11h28

Agência Museu Goeldi - A trajetória acadêmico-científica da zoóloga Ana Lúcia Prudente, pesquisadora titular e curadora da coleção herpetológica do Museu Paraense Emílio Goeldi, desafia indicadores de equidade de gênero, especialmente de inserção em áreas específicas de estudo, no exercício da ciência no Brasil e no mundo. No Dia Internacional das Mulheres, oficializado pela Organização das Nações Unidas em 1975 e celebrado a cada 8 de Março, reproduzem-se relatos de um cenário vantajoso aos homens, mas também de quem identificou oportunidades para ultrapassar os filtros da pós-graduação, garantir bolsa de pesquisa de alto nível de classificação e ocupar espaços de liderança.

Entre cobras e outros répteis, a zoóloga se dedica a um campo de estudos com majoritária presença de homens. Foto: Ádria Reis

Em 2017 e em colaboração com a Academia Brasileira de Ciências e com o GenderInSITE, a editora holandesa Elsevier publicou o relatório “Gender in the Global Research Landscape”. Dentre outras conclusões, o documento revela que a proporção de mulheres entre pesquisadores no Brasil, no intervalo de 2011 a 2015, chegou a 49%, o que representa um crescimento em relação aos 38% registrados no período de 1996 a 2000. O panorama internacional também é animador, de acordo com os resultados do relatório: se entre 1996 e 2000, nos 12 países/regiões estudados, apenas em Portugal a população de mulheres pesquisadoras era superior a 40% do total, no período de 2011 a 2015, nove países/regiões apresentaram uma participação de pesquisadoras de 40% ou mais – o Brasil está na lista ao lado de Austrália, Canadá, Dinamarca, União Europeia, França, Portugal, Reino Unido e Estados Unidos. Mas esse panorama ganha contornos discrepantes quando se observa a inserção por grandes áreas de conhecimento e seus campos de pesquisa.

“Se você traçar um panorama da Herpetologia no Brasil, são poucas as mulheres que ocupam espaços importantes em termos acadêmicos e científicos. São daquela minha geração, que era notoriamente muito mais masculina do que feminina”, ressalta a goiana, que iniciou sua formação em Biologia, em 1986, em Minas Gerais, e cursou pós-graduação em Porto Alegre, Curitiba e São Paulo. Ana Prudente assume ter uma postura diante dos desafios a que atribui alcançar lugares pouco ocupados pelas mulheres. Em voz firme, ela define: é ter foco. É do seu perfil identificar ocasiões ideais. “Se eu não estudasse serpentes, eu estudaria qualquer outro animal. Hoje eu gosto da minha profissão. Não trato as serpentes como um hobby. Tanto que nunca criei cobra. Não tenho esse fascínio. Ela é meu objeto de estudo”, sentencia.

Numa observação ampla, não há discriminação por gênero entre os critérios para se atingir o cargo de pesquisador titular, o mais alto degrau da carreira científica. Conforme a Lei No. 8.691/1993, a progressão à classe está condicionada à realização de pesquisas durante, pelo menos, seis anos, após a obtenção do título de Doutor. É preciso ainda ter reconhecida liderança em sua área de pesquisa, consolidada por publicações relevantes de circulação internacional, pela coordenação de projetos ou grupos de pesquisa e pela contribuição na formação de novos pesquisadores. No entanto, o relatório “Brasil – Gênero, Ciência, Tecnologia e Inovação - Um Olhar Feminino” informa que a participação feminina na produção do conhecimento ainda está aquém da presença feminina na universidade. Esses critérios não intimidaram Ana Prudente.

Foi no Museu Goeldi, em Belém, que ela selou seu compromisso profissional com a ciência, após ter sido aprovada no concurso público do ano 2000. Especializada nos estudos dos aspectos evolutivos dos répteis, ela assumiu, no mesmo ano, a curadoria da segunda maior coleção herpetológica do país, que pertence à instituição amazônica, e agora chefia o Laboratório de Biologia Molecular.

A presença feminina em postos de liderança não é incomum no Museu Goeldi, onde mais da metade dos cargos de chefia são ocupados por mulheres e que fez da zoóloga Emília Snethlage (1868-1929), em 1914, a primeira mulher a dirigir uma instituição científica na América do Sul. Esse quadro institucional, no entanto, destoa do cenário nacional. Apenas cinco das 16 unidades de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) são coordenadas por mulheres, sendo o Museu Goeldi uma delas.

Determinação - Ana Prudente reconhece existirem condições adversas para as mulheres na ciência, mas encarou cada uma como desafios e contou com apoio familiar para conciliar a vida profissional com a maternidade, como o incentivo incondicional do pai na sua formação e a participação ativa do marido nas tarefas domésticas. “Conciliar a maternidade e a carreira não foi um problema para mim, porque quando decidi ser mãe eu já estava empregada, com doutorado, marido, ou seja, com condições favoráveis para ser mãe. É uma exceção. É comum observar que o período do mestrado e doutorado coincide com o período em que as pesquisadoras demonstram o desejo de serem mães. Se passar esse período, talvez elas não tenham oportunidade de vivenciar a maternidade”, pondera.

Ilustrativo da importância das alavancas afetivas e práticas nesse sucesso pode ser ainda o estudo apresentado pelo grupo Parent in Science no I Simpósio Brasileiro sobre Maternidade e Ciência, em 2018. Os resultados demonstram que 54% das cientistas são as únicas responsáveis pelos cuidados com os filhos e 34% compartilham a tarefa com o pai da criança, nos demais casos há apoio de outras pessoas, como membros da família e babá.

Ana Prudente conta, sem rodeios, que conseguiu enfrentar o árido trabalho de campo com até quatro meses de gestação e conciliou a amamentação com atividades acadêmicas – ela é mãe de um casal de 13 e 16 anos de idade. “Eu percebi que os anos mais produtivos e criativos foram quando eu dei à luz. Me senti tão plena que eu tive alunos defendendo durante minha licença maternidade. Eles iam à minha casa, eu amamentava, corrigia, levava meus filhos para o museu...”, descreve. A cientista hoje tem bolsa de produtividade do CNPq, uma conquista atribuída a quem comprova alto nível de rendimento segundo avaliação de seus próprios pares cientistas e, na maioria dos casos, sob condições bastante competitivas.

Mas, a experiência das cientistas no Brasil com a maternidade é diferente do que vivencia a herpetóloga. O mesmo estudo do Parente in Science conclui que pesquisadoras sem filhos conseguem manter a taxa de publicações em ritmo regular ao longo do ano, enquanto cientistas que se tornam mães apresentaram queda no desempenho, reduzindo os indicadores de bolsa de produtividade pela agência de financiamento público. Não à toa, o impacto da maternidade para 59% das entrevistadas é considerado negativo e, para 22%, bastante negativo; 5% consideraram positivo e outros 2%, bastante positivo; 12% não percebem nenhum impacto.

Como professora, Ana Prudente oferece oportunidades para garantir equidade de gênero. Foto: Ádria Reis

Uma boa medida para diminuir os reflexos da maternidade na carreira científica, argumenta Ana Prudente, foi a aprovação e implementação da Lei No. 13.536. A partir de 2017, bolsistas de pesquisa passaram a ter direito de suspensão de suas atividades acadêmicas por até 120 dias, sem prejuízo financeiro, em caso de maternidade ou adoção. O controle sobre as diversas formas de assédio também é visto com bons olhos. “Eu tive contato com assédio moral, assédio sexual. Mas, na minha época, eles eram entendidos como uma brincadeira boba. As coisas mudaram. Assédio sexual é crime”, compara.

Como professora do Programa de Pós-graduação em Zoologia, Ana Prudente se dedica a equiparar as oportunidades e encorajar seus discentes. “Em campo, a gente sempre separa meninos de meninas, porque, no campo, nem sempre tem banheiro para todo mundo. A gente vai para o meio da mata, passa por situações inusitadas, fica menstruada... São diferenças e não podem ser impeditivas”, ilustra. Quando era pós-graduanda, Ana Prudente relembra que fincava pé na hora de disputar as saídas a campo, frequentemente concedidas aos homens. Ela propõe que as mulheres encontrem estratégias coletivas e desaconselha a atitude de passividade frente a posturas machistas.

Texto: Erika Morhy