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Nova espécie de rã da Amazônia tem voz de passarinho

A rãzinha, que recebeu o nome de Adenomera phonotriccus, foi identificada pelo seu canto único, semelhante à voz de uma ave. A espécie foi descoberta numa região do sudeste do Pará bastante impactada pelo desmatamento, o que ameaça a sua existência.
publicado: 25/02/2019 14h00 última modificação: 26/02/2019 11h02

Agência Museu Goeldi – Muitos animais são prontamente reconhecidos pelos sons que emitem, mas os cientistas também podem se confundir de vez em quando. Pesquisadores anunciaram recentemente a descoberta de uma nova espécie de rã que possui o canto mais parecido com o de um grupo de aves (popularmente chamadas de “marias”, do gênero Hemitriccus) do que com outras espécies de sapos relacionadas a ela.

A descoberta, publicada no periódico American Museum Novitates, inclui uma descrição detalhada da anatomia e canto do animal, além de uma análise genética que ajudou os pesquisadores a identificar a que grupo de sapinhos a nova espécie pertence. Thiago de Carvalho, pesquisador da Universidade Estadual Paulista e líder do estudo, explica: “Para descrever a espécie adequadamente, tivemos que comparar seu canto, morfologia e genética com diversas espécies semelhantes da América do Sul”.

Nova espécie de rã da Amazônia tem “voz” de passarinho - Fotolegenda.png

O sapinho pertence ao gênero Adenomera, que inclui diversas outras espécies distribuídas em quase toda a América do Sul. A diversidade do grupo ainda é subestimada e muitas espécies têm sido reveladas a partir de estudos genéticos e bioacústicos (área da biologia que estuda os sons emitidos pelos animais). Carvalho destaca que o canto da nova espécie é único quando comparado ao das outras espécies do grupo: “A maioria das espécies do gênero Adenomera possui cantos bem curtos, sem a formação de pulsos completos, ou seja, com intervalos silenciosos entre os pulsos. A Adenomera phonotriccus surpreende por possuir esse canto mais longo, no qual é fácil diferenciar os pulsos”, acrescenta.

Descrição da espécie Pedro Peloso, pesquisador colaborador do Museu Paraense Emílio Goeldi e professor de Zoologia da Universidade Federal do Pará, conta que a espécie foi descoberta em 2010 durante um estudo da diversidade na região. “Foi uma enorme surpresa quando confirmei que o canto que ouvia dentro da mata vinha deste pequeno sapinho. Imediatamente soube que se tratava de uma espécie não documentada para a região”, afirma Peloso. A vocalização da espécie é semelhante ao de uma outra do gênero Adenomera, ainda sem nome, existente no Peru.

Nova espécie de rã da Amazônia tem “voz” de passarinho - Fotolegenda2.png

O pesquisador explica que para descrever a espécie foi preciso retornar ao local onde ela tinha sido inicialmente descoberta, no município de Palestina do Pará, no sudeste do estado. “Em 2010, o nosso estudo não era direcionado a essa espécie, estávamos tentando estudar toda a fauna de uma só vez. Quando voltamos ao mesmo local no início de 2018, pudemos focar na coleta de novos dados sobre o canto e ecologia da espécie”, explica.

O nome da espécie é uma alusão ao seu canto. Os pesquisadores explicam que o nome ‘phonotriccus’ quer dizer aquele que tem “voz” de “triccus”, onde triccus geralmente identifica um grupo de passarinhos que inclui diversas espécies de papa-moscas e maria-sebinha. Um dos biólogos do Museu Goeldi especialista em aves, Pablo Cerqueira também acompanhou a expedição realizada em 2018. “Quando ouvi o som do sapinho que eles buscavam, imediatamente me lembrei de uma voz da maria-sebinha-do-acre [Hemitriccus cohnhafti]”, relata o ornitólogo.

Ouça o canto da nova espécie de rã da Amazônia (Adenomera phonotriccus):

Ouça o canto do pássaro maria-sebinha-do-Acre (Hemitriccus cohnhafti):

Desmatamento – A rãzinha Adenomera phonotriccus foi descoberta em 2010 num fragmento florestal próximo ao rio Araguaia, na região do município de Palestina do Pará, divisa dos estados do Pará e Tocantins. A segunda expedição, realizada em 2018 no mesmo local, revelou que a região é fortemente afetada pelo desmatamento.

O biólogo Pedro Peloso esteve presente nas duas expedições e alerta que essa é uma espécie florestal e a destruição do ambiente pode ameaçar a sua existência. “Boa parte da floresta em que caminhávamos foi derrubada”, lamenta Pedro. “O ponto onde a espécie foi originalmente descoberta, que ficava dentro da floresta, hoje está na borda da mata e já não foi tão fácil encontrar o animal”, acrescenta. A situação da região é preocupante, os fragmentos restantes de floresta são muito pequenos e desconectados em sua maioria.

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