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Agência de Notícias

Festa do Cauim está em exposição no Goeldi

Em um momento de avanço predatório sobre as terras do Alto Turiaçú, etnia Ka´apor mostra força de suas tradições em exposição no Museu Goeldi
publicado: 13/11/2014 17h15, última modificação: 27/11/2017 17h14

Agência Museu Goeldi –A exposição “A Festa do Caium - Ka'apor  akaju  kawĩ   ta’yn  muherha” está aberta para visitação pública no Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG). Localizada na Rocinha, o pavilhão expositivo Domingos Soares Ferreira Penna a mostra é dedicada à Festa do Cauim, celebração que marca vários ritos de passagem do povo indígena Ka’apor, como a iniciação feminina, o casamento, a posse do cacique e principalmente a nominação das crianças.

Durante o trajeto expositivo, os visitantes poderão ver um rico acervo da cultura material Ka’apor, como objetos de arte plumária, cestaria, flechas, adornos de miçangas e sementes, desenhos, além de indumentárias masculinas e femininas. Outro ponto importante da mostra são fotografias do acervo do Museu do Índio e vídeos de registro da festa do Cauim, com imagens capturadas na década de 1960 e em 2007 nas aldeias Ka’apor.

Além do ineditismo do assunto, a exposição traz novidades em outras áreas do Museu Goeldi, como a acessibilidade. “Nós trouxemos das aldeias Ka’apor peças de caça, pesca e adorno que podem ser tocadas por visitantes com baixa visão ou deficiência visual completa. Isso ainda é raro em museus”, conta o coordenador-substituto de Museologia do Goeldi, Horácio Higuchi.

De acordo com Horácio, a autoria e montagem da exposição são compartilhadas com os Ka’apor, que sugeriram o tema e construíram os conteúdos em conjunto com o Museu Goeldi e o Museu de Etnografia de Leiden, na Holanda, parceiros no projeto.

A antropóloga do Museu Goeldi, Claudia López, uma das curadoras da exposição e estudiosa das dinâmicas sociais e culturais da etnia Ka’apor, afirma que “apresentar as tradições Ka’apor é uma maneira de mostrar que o povo está vivo, que resiste, que tem uma cultura viva e que eles estão defendendo seu território”.

A exposição “A Festa do Caium - Ka'apor  akaju  kawĩ   ta’yn  muherha” segue até dezembro de 2016. As visitações ocorrem de uqrta-feira a domingo, de 9h às 15h.

Abertura - Na abertura oficial da exposição, realizada no final do mês de outubro, um grupo de 42 Ka'apor, entre adultos e crianças da Terra Indígena Alto Turiaçú (MA), fez a demonstração de parte dos rituais que formam a Festa do Cauim. Durante o evento, no Parque Zoobotânico do Museu Goeldi, o grupo realizou a cerimônia de batismo de algumas crianças da etnia, que pela primeira vez aconteceu fora da aldeia.

Os indígenas também reforçaram a militância pelo direito ao seu território e destacaram a luta que travam contra os madeireiros ilegais. “Os invasores estão acabando com a nossa mata, nos ameaçando de morte e os nossos aliados não estão mais nem aí para ajudar a gente, então nós mesmos estamos nos ‘virando’ para preservar a nossa floresta”, disse Teon Ka’apor, uma das lideranças da tribo.

Teon contou que o avanço dos madeireiros prejudicou vários aspectos da vida dos habitantes da TI Alto Turiaçú, incluindo a realização da Festa do Cauim, a maior tradição dos Ka’apor. “Por três anos nós não fizemos (a nossa festa) por causa da invasão que estava aperreando a gente, causando muita preocupação”, explicou.

Durante o discurso de abertura, Xai Kaapor, outro integrante da etnia, fez um apelo para conscientizar os presentes sobre os direitos indígenas. “Vocês brancos podiam nos respeitar. Nós respeitamos vocês, não ameaçamos vocês, vocês que estão ameaçando a gente. Entram na nossa área e estão querendo tomar nossas terras, dizendo que têm direito de viver e nós não”, finalizou.

Para conter o desflorestamento, por exemplo, os Ka’apor desenvolveram estratégias próprias de proteção de seu território contra a exploração madeireira ilegal. A antropóloga Claudia López afirma que “o Museu Goeldi oferece dados de pesquisa que podem contribuir para criar políticas públicas e pra enfatizar novamente que o território Ka’apor precisa estar livre de invasões e que as autoridades competentes devem atuar”.

Serviço

Exposição “A Festa do Caium - Ka'apor  akaju  kawĩ   ta’yn  muherha”
Local: Pavilhão Domingos Soares Ferreira Penna (Rocinha) – Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi (Avenida Magalhães Barata, 376, São Brás)
Visitação: quarta-feira a domingo, até dezembro de 2016
Horário: 9h às 17h

Texto: João Cunha