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Agência de Notícias

III Simpósio da Biota Amazônica atualiza rumos do saber sobre a região

Museu Goeldi celebra seu sesquicentenário convidando comunidade científica a refletir sobre os 150 anos de estudos e interações na Amazônia, bem como as perspectivas para o futuro
publicado: 25/11/2016 14h00, última modificação: 13/03/2018 16h36

Agência Museu Goeldi - Como o conhecimento sobre a Amazônia tem dialogado com o avanço das diversas áreas da ciência? Como esses avanços têm contribuído para preservar e desenvolver sustentavelmente a região? Quais são, afinal, os grandes desafios para ciência neste século e como o conhecimento compartilhado pelos museus de história natural se inserem neste contexto? Essas são algumas das questões que estarão no centro dos debates e apresentações do III Simpósio da Biota Amazônica, a ser realizado de 28 a 30 de novembro de 2016, em Belém (PA).

Simpósio debate caminhos da ciência e seus impactos na AmazôniaCerca de 200 pesquisadores do Brasil e do exterior participarão do encontro científico, a ser realizado no auditório do Campus de Pesquisa do Museu Goeldi. Com o tema "Museu Goeldi: 150 anos descobrindo a Amazônia", o simpósio marca o aniversário da mais antiga instituição de pesquisa da região e tem um grande significado: em um século e meio de atuação da instituição, só aconteceu três vezes, em momentos históricos marcantes. Isso porque sua missão é sempre reorientar os esforços da pesquisa, frente a novos cenários e questionamentos apontados para a ciência e para o compartilhamento dessa produção de conhecimento sobre a Amazônia.

Basta lembrar que o I Simpósio da Biota Amazônica aconteceu em 1966, promovido pela Associação de Biologia Tropical, em colaboração com o então Conselho Nacional de Pesquisas (atual Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico, CNPq). Realizado no ano do centenário do Museu Goeldi, aquele foi o primeiro grande evento científico nacional a olhar para a região - num contexto de progressiva ampliação do sistema nacional de ciência e tecnologia brasileiro. Assim, acabou sendo um marco para as políticas nacionais de ciência e tecnologia voltadas para a região.

Já em 2006, durante as comemorações pelos 140 anos do museu, o II Simpósio da Biota Amazônica debateu quatro décadas de avanços científicos e transformações socioambientais. Naquele momento, o foco foi a reflexão sobre a história recente da Amazônia – e suas transformações sociais e ambientais entre 1966 e 2006.

Transformações – Sede do Simpósio da Biota Amazônica, o Museu Goeldi é reconhecido como uma instituição científica de referência sobre a região amazônica. Em 2015, passou a ser considerado também instituição de ensino superior.

Sediada na porção oriental da Amazônia, onde se tem os registros mais antigos de ocupação humana e a área mais densamente povoada – e se concentram os maiores projetos de infraestrutura da região –, a instituição se tornou, nesses 150 anos, a maior testemunha científica das profundas mudanças que aqui ocorreram. Entre elas, a larga escala dos impactos antrópicos (causados pelas ações humanas), agora perceptíveis em aproximadamente 50% do território amazônico, bem como a diversificação e recomposição do mapa demográfico e político, a ampliação da economia local e também as obras derivadas de grandes projetos - como rodovias, ferrovias, hidrelétricas e empreendimentos industriais.

Entre os temas debatidos no simpósio, temos a evolução da biota amazônicaA aceleração das dinâmicas sociais - como migrações, conflitos agrários e étnicos, assentamentos, movimentos sociais e demarcação de áreas indígenas – também impactaram esse cenário, marcado por altas taxas de desflorestamento, significativa mudança da paisagem regional e sérios problemas sociais.

Nesse período, e principalmente nos últimos 50 anos, também nunca se pesquisou tanto a região. Além das instituições nacionais e regionais, que agora atuam em maior número, espalhadas por todos os estados amazônicos, vários cientistas do Brasil e do exterior - geralmente organizados em redes de pesquisa com participação nacional e internacional -, vêm também se dedicando ao conhecimento científico sobre o funcionamento da maior floresta do planeta, bem como sobre suas espécies e habitantes.

Vale lembrar: ter um balanço atual dos avanços do conhecimento sobre a Amazônia - e em especial da compreensão que o mundo tem hoje sobre a região – tem crucial relevância no contexto dos esforços de mitigação dos efeitos das mudanças globais, no que tange também a riscos contra a biodiversidade e à sustentabilidade do planeta.

 “Queremos saber como esses temas estão sendo debatidos hoje, que avanços foram feitos e que caminhos podemos seguir”, resume a pesquisadora Ana Vilacy Galucio, coordenadora de pesquisa e pós-graduação do Museu Goeldi.  O III Simpósio da Biota Amazônica contará com doze convidados do Brasil e do exterior. O norte-americano Thomas Lovejoy, um dos maiores estudiosos sobre biologia tropical do globo, fará a conferência magna de abertura do evento: “The Land of Cinnamon and Gold: 500 years of Amazon science and exploration” (“A terra da canela e do ouro: 500 anos de ciência e de exploração amazônica”).

Professor titular de Ciência e Política Ambiental da Universidade George Mason (de Fairfax, Virgínia, EUA) e presidente de biodiversidade do Centro Heinz para Ciência, Economia e Meio Ambiente, Lovejoy estuda a Amazônia há mais de quatro décadas.

Graduada em Língua e Literatura Portuguesa e Francesa pela Universidade Federal do Pará (UFPA), mestre e doutora em Linguística pela University of Chicago, Ana Vilacy Galucio é também professora do Programa de Pós-Graduação em Letras (mestrado e doutorado em Linguística e Estudos Literários) da UFPA. Há anos vem dedicando-se à descrição, análise e documentação de línguas indígenas, em estudos referentes ao tronco tupi e em especial sobre as línguas das famílias Tupari e Puruborá.

A própria trajetória da professora e pesquisadora Vilacy Galucio, quase toda ligada à atuação do Museu Goeldi na Amazônia Oriental, pode ser considerada um exemplo da importância da instituição enquanto agente decisivo para formação de quadros da pesquisa na região - com geração de conhecimento focado na interdisciplinaridade -, e da sua capacidade de ser um grande elo entre a comunidade científica nacional e internacional e a Amazônia.  Nesse sentido, muito mais que uma programação alusiva à passagem do tempo para o museu, o III Simpósio da Biota da Amazônia representa, mais uma vez, uma grande oportunidade de interação intensa do bioma amazônico e do saber gerado sobre essa região com o mundo.

Vilacy Galucio: temáticas debatidas por diferentes perspectivasNa entrevista abaixo, a pesquisadora Ana Vilacy Galúcio fala sobre o evento, que é organizado pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Ministério da Ciência Inovação e Comunicações (MCTIC) e com a participação de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Museu da Amazônia (Musa), da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal do Pará (UFPA), Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade de Tulane, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e do Instituto Mamirauá para o Desenvolvimento Sustentável. 

O que queremos neste III Simpósio da Biota da Amazônia?

A ideia é que este seja um evento celebrativo da trajetória do Museu Goeldi aqui na Amazônia, a partir da abordagem de sua atuação em pesquisas na região e dos grandes temas que hoje permeiam as discussões acadêmicas, ou seja, o celebrar a história da instituição, através da discussão de temas importantes para a compreensão da nossa região. E, ao mesmo tempo, celebrar os 150 anos do museu e sua relação com a sociedade e seus diferentes atores. As parcerias que a instituição teve, ao longo do tempo, com a sociedade, tanto em nível pessoal, através de seus pesquisadores, quanto institucional, é um dos pontos fontes que permitem ao Museu Goeldi se manter por todo esse tempo.  Relações diretas com pesquisadores, com outros museus, universidades e outros centros de pesquisa no País e no mundo. Isso também se reflete nas realizações do museu, nesses 150 anos, nos grandes temas de interesse da região hoje. Pretendemos atingir inicialmente a comunidade de pesquisadores, técnicos, alunos de graduação e pós-graduação e bolsistas. Todos os interessados poderão se inscrever, gratuitamente. E mesmo quem não consiga se inscrever, pode participar. Nosso auditório tem capacidade para 220 pessoas. Esse é o público que esperamos.


Como você avalia as mudanças na atuação da instituição nesses 150 anos? Mudamos muito entre a instituição pioneira na Amazônia e o cenário de hoje?

Ao decorrer deste tempo, o Museu Goeldi foi se adequando às demandas que a região apresentou. Por exemplo, na primeira apresentação do Biota Amazônia, em 1966, embora os temas fossem relativamente similares aos de hoje, as questões específicas eram muito diferentes das atuais. E instituição necessitou fazer ajustes para responder às questões que foram sendo apresentadas, tanto do ponto de vista acadêmico e social, quanto também para a formação de pesquisadores, para atuarem em questões específicas e aos novos desafios que surgem hoje. Se o Museu Goeldi se manteve nestes 150 anos, é porque a instituição está atenta a essas mudanças, e não está fora de seu tempo. Ela consegue entender esse momento atual e o anseio de se reformular.


Na década de 1990, o Brasil e a Amazônia viram surgir novos atores, como as Organizações Não Governamentais (ONGs). Como elas têm pautas menores, têm também mais agilidade para atuar como foco em determinadas questões diretamente vinculadas à questão de gestão ambiental. Como se dá essa relação?

As ONGs têm um escopo bastante diferente de um instituto de pesquisa, ciência e tecnologia. Elas surgem com um objetivo mais delimitado. E por isso talvez possam responder sim com mais agilidade a várias questões específicas. Há diversos parceiros do Museu Goeldi na sociedade civil e entre essas ONGs, e a instituição coopera e colabora com essas organizações, somando expertise. Acho que os pesquisadores escolhem parceiros de acordo com os interesses e ideias que dividem, sejam acadêmicos, sociais e em políticas públicas. Assim, o museu tem diversos parceiros, seja ONGs, entidades de cunho sociais, comunidades tradicionais. Não podemos nos dar ao luxo de escolher parceiros acordo com os nossos setores de atuação. Escolhemos parceiros que compartilham os ideais da instituição, de produzir pesquisa, compartilhar essa pesquisa com a sociedade e tentar mudar, influenciar a vida na região. 


O que se espera com as discussões sobre os grandes temas da programação deste ano, ligados aos debates sobre a Amazônia, formação, ocupação a migrações humanas?

A ideia é discutir esses temas a partir do que tem sido feito na região. Para isso reunimos parceiros institucionais do Museu e pessoas que atuam discutindo esses temas atualmente hoje em todo o mundo. E pessoas de formação multidisciplinar, porque, de fato, essa é uma formação que responde às características de atuação da instituição, embora nem sempre trabalhemos isso de maneira formal. Essa interdisciplinaridade é uma característica do Museu Goeldi. Assim, o que esperamos com esses temas é discutir os avanços da ciência de cada uma dessas questões para a região amazônica. Seja a formação física, a sua ocupação histórica, através da arqueologia, do estudo das sociedades que moldaram a região, em séculos e até milênios passados, tanto quanto a discussão da antropologia sobre a ocupação e a formação humana, a partir do entendimento de suas sociedades mais contemporâneas. Quando a gente discute, por exemplo, inovação e conservação, ao final do evento, no tema ‘Conservação, desenvolvimento e sustentabilidade: cenários para os próximos 150 anos’, a ideia é pensar o que tem acontecido na região em termos de conservação e os impactos da ação antrópica e não antrópica sobre a biota, sobre a biodiversidade da nossa região, bem como pensar quais são as possibilidades que a academia tem a oferecer para que possamos ter impactos mais positivos na conservação da Amazônia. A ideia do simpósio, então, é discutir esses temas através de perspectivas diferentes, olhando o que tem sido feito e o que a gente pode continuar fazendo para direcionar a nossa atuação enquanto instituição de pesquisa.


Texto: Lázaro Magalhães e Joice Santos

 

III Simpósio da Biota Amazônica
Museu Goeldi: 150 anos descobrindo a Amazônia


ONDE E QUANDO
De 28 a 30 de novembro de 2016
No auditório Paulo Cavalcante, Campus de Pesquisa do Museu Goeldi
(Av. Perimetral, 1901 – Terra Firme – Belém/PA)

COMO PARTICIPAR 
Informações e inscrições podem ser feitas pelo contato e formulário abaixo.
Mail: biota3@museu-goeldi.br
Inscrições: www.eventbrite.com.br/e/iii-biota-amazonica-museu-goeldi-150-anos-descobrindo-a-amazonia-tickets-29570025743?aff=es2

PROGRAMAÇÃO

28 de novembro

14h - Sessão solene de abertura
14h30 - Conferência Magna – Dr Thomas Lovejoy (George Mason University)
– “The Land of Cinnamon and Gold: 500 years of Amazon science and exploration”.


15h30 - Intervalo (Coffee Break)


16h às 18h - Mesa Redonda “Amazônia: formação, ocupação e migrações humanas”.
Moderador: Glenn Shepard (MPEG)

Dr. Peter Mann Toledo (INPE)
– O Antropoceno e os desafios para a construção de estratégias de conservação na Amazônia.

Dr Eduardo Neves (USP)
– Evidências antigas de domesticação de paisagens no Sudoeste da Amazônia.

Dr. William Baleé (Tulane University)
 – Aplicação de ecologia histórica na Amazônia brasileira.


29 de novembro

8h30 às 10h30 - Mesa Redonda
“Museus de ciência: política científica e comunicação da ciência”.

Moderadora: Dra. Lucia Hussak (MPEG)

Dr. Ennio Candotti  (SPBC, MUSA)
– A Amazônia, o museu e o jardim botânico.

Dra. Marília Cury (MAST)
– Museus em transição - políticas de comunicação e gestão de acervo.    

Dra. Luciana Marinoni (UFPR)
– Políticas públicas para a taxonomia e coleções biológicas brasileiras.


10h30 - Intervalo (Coffee Break)


10h45 às 12h00 - Conferência
“Inovação tecnológica, conhecimento tradicional associado ao uso da biodiversidade: bioprospecção e desenvolvimento de tecnologias” – Dra. Eliana Moreira (UFSC)


12h – Almoço

14h às 16h - Mesa Redonda “Mudanças ambientais na Amazônia”.
Moderadora: Dra. Ima Vieira (MPEG)                                                                                               

Dr. Helder Queiroz (Instituto Mamirauá)
– Antropização e mudanças ambientais: perspectivas futuras para as florestas de várzea da Amazônia.                                                  .

Dr. Philip Fearnside (INPA)
– Hidrelétricas amazônicas e mudanças climáticas.

Dra. Ima Vieira (MPEG)
– Impactos antropogênicos na Amazônia e os desafios para a sustentabilidade regional.

16h - Homenagens, lançamento de livros e coquetel


30 de novembro                                                                                                                              

8h30 - Visita guiada a laboratórios

9h30 - Intervalo (Coffee Break)

10h às 12h - Mesa Redonda
“Dinâmicas socioculturais: povos, culturas e territórios”.

Moderador: Dr. Marcio Meira (MPEG)

Dr. Rui Murrieta (USP)
– Antropologia e sociedades caboclas no Museu Goeldi: apontamentos de jornada particular.

Dr. Hein van der Voort (MPEG)
– A relevância das línguas indígenas na biota amazônica.

Dra. Deborah Lima (UFMG)
– Áreas protegidas no século 21: novas imagens de natureza e sociedade na Amazônia.

12h - Almoço

14h às 16h – Mesa Redonda
“Padrões históricos da biota: o conhecimento da biodiversidade amazônica dos primeiros naturalistas à metagenômica”.

Moderador: Dr. Alexandre Aleixo (MPEG)

Dr. Nelson Papavero (USP)
– A evolução do conhecimento da fauna amazônica - de Pinzón à atualidade.

Dr. Ricardo Secco (MPEG)
– Revisando a Botânica no decorrer de 150 anos de Museu Goeldi.

Dr. Maria Paula Schneider (UFPA)
– Contribuição da metagenômica para o conhecimento da diversidade microbiana na Amazônia.

16h - Intervalo (Coffee Break)


16h às 18h – Mesa Redonda
“Conservação, desenvolvimento e sustentabilidade: cenários para os próximos 150 anos”.

Moderador: Dr. Mário Augusto Jardim (MPEG)

Dr. Ronaldo Barthem (MPEG)
– Manejo integrado de bacia com enfoque na pesca de peixes migradores e na conservação de áreas úmidas.

Dra. Marlúcia Martins (MPEG)
– Conservação da biodiversidade amazônica. Quais cenários podemos construir?

18h – Coquetel de encerramento

 

*Atualizado em 25/11/16, às 13h.