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Cientistas alertam para o colapso global da biodiversidade

Artigo publicado na revista Nature indica que apenas medidas urgentes e coordenadas podem reverter a perda de espécies nos ecossistemas tropicais, que concentram mais de 3/4 de todas as espécies do planeta, incluindo aves e corais. O estudo é uma síntese detalhada dos quatro ecossistemas tropicais mais diversos da Terra. Pesquisadores de instituições de oito países, incluindo o Museu Emílio Goeldi, assinam o artigo.
publicado: 01/08/2018 17h18 última modificação: 01/08/2018 17h39

Agência Museu Goeldi – Os autores do artigo O futuro dos ecossistemas tropicais hiperdiversos (The future of hyperdiverse tropical ecosystems), publicado pela revista Nature, fazem um grave alerta: a falta de ação rápida e decisiva por parte de governos locais, organismos internacionais, iniciativa privada e demais atores poderá potencializar o risco de perda definitiva de espécies nos ecossistemas mais diversos do planeta.

Queimadas e fenômenos climáticos também impactam os ecossistemasDesenvolvido por uma equipe multidisciplinar de cientistas do Brasil, África do Sul, Austrália, China, Estados Unidos, Japão, Reino Unido e Suécia, o estudo é a primeira síntese detalhada do estado dos ecossistemas tropicais mais diversos do planeta – florestas, savanas, lagos e rios e recifes de corais.

Os trópicos ocupam apenas 40% do planeta, todavia, eles abrigam mais de três quartos de todas as espécies, incluindo quase todos os corais de águas rasas e mais de 90% das espécies de aves existentes. A maioria dessas espécies não é encontrada em nenhum outro lugar e milhares de outras ainda são desconhecidas da ciência.

A bolsista de capacitação institucional da Coordenação de Zoologia do Museu Goeldi, Cecília Gontijo Leal, é uma das autoras do artigo e sintetiza o que preocupa os cientistas empenhados em conhecer essa diversidade: “No atual ritmo de descrição de novas espécies – em torno de 20 mil por ano – podemos estimar mais 300 anos para catalogar a biodiversidade do planeta”, analisa. Seu pensamento é complementado por Jos Barlow, principal autor do artigo, pesquisador da Universidade de Lancaster (Reino Unido) e com estudos na Amazônia brasileira há mais de duas décadas, que expressa bem o temor dos pesquisadores: “há 50 anos, os biólogos esperavam ser os primeiros a encontrar uma espécie. Agora, esperam não ser os últimos”.

Pressões e florestas silenciosas– Em todos os ecossistemas tropicais, muitas espécies são ameaçadas duplamente por pressões humanas. A pesca predatória ou a extração seletiva de madeira, que privilegia espécies de alto valor comercial, causando a degradação de extensas áreas, são alguns exemplos. As ameaças se agravam quando se considera o impacto dos fenômenos climáticos de larga escala, como secas e ondas de calor.

O ornitologista Alexander Lees, da Universidade Metropolitana de Manchester (Reino Unido), explica que a captura massiva de animais selvagens ilegalmente traficados resultou na perda anual de milhões de indivíduos de espécies conhecidas, entre elas, aves como o bicudo (Sporophila maximiliani), o bicudinho (Sporophila crassirostris), o cardeal-amarelo (Gubernatrix cristata) e o pintassilgo-do-nordeste (Spinus yarrelli).

Revoada de maitacas-de-cabeça-azul na Amazônia peruana“A captura massiva também afetou muitas outras espécies sobre as quais pouco sabemos. Várias espécies de pequenas aves cantoras estão em risco iminente de extinção global, por exemplo. Por conta disso, as florestas tropicais onde vivem estão cada vez mais silenciosas”, completa Lees.

Humanidade afetada – Jos Barlow explica como a degradação dos ecossistemas tropicais ameaça também o bem-estar de milhões de pessoas em todo o planeta: “embora cubram apenas 0,1% da superfície do oceano, os recifes de corais fornecem recursos pesqueiros e proteção costeira para 200 milhões de pessoas. Da mesma forma, florestas e savanas tropicais armazenam 40% de todo o carbono encontrado na biosfera terrestre e são determinantes para a ocorrência de chuvas em algumas das regiões agrícolas mais importantes do planeta”, ressalta.

Soluções – Além de qualificar com dados um problema de escala global, o estudo também aponta as ações necessárias para recuperar e proteger esses ecossistemas vitais. É necessário uma mudança definitiva nos esforços internacionais que visam à promoção de modelos sustentáveis de desenvolvimento, como também intervenções eficazes voltadas à conservação e restauração dos habitats tropicais e a garantia da continua ampliação do conhecimento.

“Estes ambientes têm sido o lar e o refúgio da esmagadora maioria da biodiversidade da Terra por milhões de anos. Em países como o Brasil, boa parte da solução passa por fortalecer as instituições de pesquisa nos trópicos. Apesar de algumas exceções notáveis, a grande maioria dos dados e pesquisas relacionados à biodiversidade está concentrada em países desenvolvidos e não tropicais”, enfatiza Joice Ferreira, pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental.

Ecossistemas tropicais abrigam a maior parte da biodiversidade do mundoPara Jos Barlow, “o destino dos trópicos será em grande parte determinado pelo que acontece em outras partes do planeta. Embora a maioria de nós esteja familiarizada com o impacto das alterações climáticas nas regiões polares, elas também têm consequências devastadoras nos trópicos. Sem uma ação urgente, este cenário pode enfraquecer as intervenções locais em prol da conservação”. Uma abordagem internacional e multidisciplinar, portanto, é vital para reduzir a perda de biodiversidade nos trópicos.

Rede Amazônia Sustentável – Os autores do estudo fazem parte da Rede Amazônia Sustentável (RAS), formada por cientistas de dezenas de instituições do Brasil e do exterior, sob a liderança da Embrapa Amazônia Oriental, Museu Paraense Emílio Goeldi, Universidade de Lancaster (Reino Unido) e Instituto Ambiental de Estocolmo (Suécia).

Fundada em 2009, a Rede Amazônia Sustentável avalia as consequências ambientais e sociais da mudança no uso da terra na Amazônia oriental brasileira. A Rede desenvolve avaliações socioecológica de fôlego e os especialistas fazem questão de disseminar e torná-las disponíveis de diversas maneiras para gestores e interessados. Para saber mais sobre o trabalho desenvolvido pela RAS, acesse o site.

 

Texto em colaboração com a Ambiental Media