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Agência de Notícias

Primeira batalha vencida: recursos garantem 2017. Mas, a guerra continua

Após intensa mobilização e pressão popular, foram liberados recursos para o Museu Goeldi, que corria o risco de fechar duas de suas bases físicas já em outubro. Preocupação, agora, é com o orçamento de 2018. No último domingo (17), a instituição foi abraçada por milhares e centenas em atos realizados em Belém e na Floresta de Caxiuanã, no Marajó (PA).
publicado: 22/09/2017 16h45, última modificação: 17/11/2017 15h48

Agência Museu Goeldi  Alertados sobre o risco do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) fechar duas de suas três bases físicas em outubro, coincidindo com seu aniversário de 151 anos, a população se mobilizou e reverberou seu protesto junto à classe política e gestores do município, estado e União. Em Belém, milhares de pessoas abraçaram o centenário Parque Zoobotânico do Museu, enquanto na Floresta Nacional de Caxiuanã, na Estação Científica da instituição, duas centenas de pessoas cantaram seu apreço e carinho pela mais antiga instituição científica da Amazônia.

Mobilizado pelas mídias sociais, o ministro da Integração Nacional, Helder Barbalho, alertou o presidente da república, Michel Temer, e buscou soluções junto ao ministro Gilberto Kassab, da pasta de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, e com o ministro Dyogo Oliveira, do Planejamento, Orçamento e Gestão. No dia 15 de setembro foi comunicado o repasse de três milhões de reais para a instituição, o que possibilita o funcionamento do Museu Goeldi até o fim do ano. Os recursos liberados não recompõem o orçamento original da instituição para 2017 - 12 milhões e 700 mil reais.

Agora a preocupação é a situação do orçamento de 2018, pois o Museu Goeldi conta apenas com 8 milhões de reais, quase o mesmo valor contingenciado de 2017. “Nós estamos passando por uma guerra orçamentária. A primeira batalha está vencida, mas a guerra continua. Temos um contingenciamento para os próximos 20 anos por uma determinação regimental, constitucional. E a nossa próxima batalha é o aumento do teto orçamentário para 2018. É lutar e ter condições para que o Museu Goeldi não passe pelo risco de fechamento que passou este ano”, explica Nilson Gabas Jr, diretor do Museu Paraense Emílio Goeldi.

Até o momento a situação do MPEG foi assunto de sessão especial na Câmara Municipal de Belém, tópico na sessão especial sobre o Ensino Superior Público na Assembléia Legislativa do Estado do Pará e em pronunciamentos dos deputados federais Joaquim Passarinho, Edmilson Rodrigues e Arnaldo Jordy. Acesse o Portal MPEG e veja notícias e notas de apoio e manifestações públicas em favor do Museu.

Abração no Museu em Belém  A proposta partiu do perfil Belém Cultural na plataforma Facebook e rapidamente ganhou adesões, sendo organizado e protagonizado pelo movimento SOS Museu Goeldi e diversos coletivos de cultura. O “Abração no Museu Goeldi” ocorreu no último domingo (17) com a participação de milhares de pessoas de diferentes idades, origens e formação. O evento cultural concentrou atividades na travessa Nove de Janeiro, entre as avenidas Magalhães Barata e Gentil Bittencourt. Um pedal com 150 ciclistas abriu o evento, após cumprir um percurso que começou na avenida Doca de Souza Franco, às 7h. Assista ao vídeo com registros do evento.

O Coletivo Roda de Hera continuou a programação com a Roda de Danças Sagradas, seguida pela apresentação do cortejo do Instituto Filhos da Terra, embalados pelo grupo parafolclórico Flor da Amazônia, que colocou o público para dançar e se divertir com atores representando a Matinta Perera, Curupira, cobra grande, onça pintada e tribos indígenas.

O evento também contou com a participação de 5 mil Desbravadores que marcharam até o Museu Goeldi para apoiar a instituição e protestar contra o seu fechamento.

Participaram ainda vários artistas declarando sua relação com o Museu Goeldi e a importância da defesa da Amazônia, como Fafá de Belém, Lucinha Bastos, Victor Fasano, Mahrco Monteiro, Pedrinho Cavalero, Alcyr Guimarães, Andrea Pinheiro, Paulinho Moura, Nilson Chaves, Juliana Sinimbú, Maca Maneschy e outros. Às 11h, todos se reuniram em torno do Parque Zoobotânico para um grande abraço, repetindo o mesmo gesto simbólico em defesa da instituição dado 28 anos atrás.

O público também pôde visitar tendas que apresentavam projetos desenvolvidos na instituição, como resultados de pesquisas, kits do Clube do Pesquisador Mirim e mostra de trabalhos do projeto de Valorização da Terceira Idade. Para a criançada, a programação ficou por conta das oficinas de desenho e pintura, além de contação de histórias no Espaço da Criança. Na tenda Eu Defendo o Museu Goeldi com Garra foram coletadas assinaturas para a petição que pede a liberação de recursos para a instituição e também foram vendidas camisas, cartazes e adesivos com estampas de animais do Parque Zoobotânico. Ao longo de todo o passeio, várias possibilidades de provar iguarias gourmet. Um enorme mural com mensagens para o Museu Goeldi foi escrito e desenhado pelos participantes do Abração.

O Abração do Museu Goeldi foi uma promoção do movimento SOS Museu Goeldi, Belém Cultural, Instituto Filhos da Terra, Espaço Cultural Valmir Bispo Santos, Projeto Circular, Coletivo Jovem de Meio Ambiente, Belém Tem Disso, Amigos de Belém, Kamara Kó, Studio Garden, Fotoativa, Coletivo Viramundo, DISCOSAOLEO. O evento teve o apoio da Associação de Servidores do Museu Goeldi, Servidores do Fisco Estadual do Pará (Sindifisco-PA), ProGoeldi, Amigos de Belém, Belém Photos, Estácio FAP, UNAMA, Associação de Moradores da Campina, Casando Belém, Coletivo de Comunicação SOS, perfil Oceanografia Socioambiental, Vila Toscana, LOC Engenharia e DHL Equipamentos e Toró de Gastronomia Sustentável.

Abraço na Estação em Caxiuanã – Ao mesmo tempo que Belém abraçava o Parque do Museu Goeldi, duas centenas de moradores das comunidades da Floresta Nacional de Caxiuanã, junto com pesquisadores e técnicos do Museu e ICMBio, abraçavam a Estação Científica da instituição, manifestando com cartazes e cantos seu envolvimento com a mais antiga instituição científica da Amazônia.

Movimento SOS Museu Goeldi  O movimento de mobilização para o conhecimento da situação orçamentária do Museu Goeldi teve início com a Associação dos Servidores do Museu Goeldi (Ascon Belém), no dia 31 de agosto, quando em reunião com os servidores chamou a atenção para as dificuldades porque passa o Museu Goeldi. Até então a sociedade em geral não conhecia o risco envolvendo a instituição que foi criada há 151 anos como o primeiro projeto nacional para o estudo do bioma amazônico – ao longo do tempo a instituição se consolidou com uma referência mundial obrigatória para os estudos sobre a sociobiodiversidade da Amazônia e um dos maiores museus brasileiros. O corte linear de 44% do orçamento decretado a todos órgãos federais e o consequente contingenciamento (pouco mais de cinco milhões de reais) impediria seu pleno funcionamento a partir de outubro, obrigando o fechamento de duas das três bases científicas do Museu: o Parque Zoobotânico, em Belém, e a Estação Científica Ferreira Penna, na Floresta Nacional de Caxiuanã, no Marajó. Além do Campus de Pesquisa, na periferia de Belém, o MPEG ainda mantém um campus avançado no Mato Grosso.

A repercussão foi imediata e, nas redes sociais foram postadas inúmeras manifestações em defesa do Museu Goeldi, reafirmando seu lugar como uma das instituições científicas brasileiras de maior vínculo afetivo com a população. O movimento SOS Museu Goeldi chamou a atenção de representantes da classe política, que se prontificaram a buscar os recursos necessários para a continuidade das atividades realizadas pelo Museu.

“O movimento SOS Museu Goeldi é formado por diversas pessoas, surgiu de forma muito espontânea e veloz para se mobilizar em prol do Museu Goeldi. O Abração deste domingo foi proposto pela Belém Cultural e a organização se deu em diversas frentes, incluindo o envolvimento da Ascon-Belém, pesquisadores, técnicos, terceirizados, voluntários, bolsistas e ex-bolsistas da instituição, de artistas e militantes da cultura, com forte adesão da sociedade. O movimento é pontuado pela expressão de vínculo e amor das pessoas com relação ao Museu Goeldi. E isso sensibilizou os políticos. Os recursos foram descontingenciados para garantir o funcionamento até o final do ano. Mas a ação continua para garantir os próximos anos. No cenário de incerteza que o Brasil se encontra, é preciso que, pelo bem da instituição e das pessoas, o Museu Goeldi possa funcionar plenamente. É nesse sentido que o movimento continua enquanto a instituição não estiver blindada”, explica Ed Amanajás, pesquisador do Grupo de Estudo em Território, Identidade, Gênero e Ambiente da Universidade Federal do Pará.

Petição – Quase seis mil pessoas já assinaram uma petição que pede a garantia do repasse de verbas públicas para a manutenção do Museu Goeldi. A petição, que foi entregue ao Ministério Público Federal no dia 15 de setembro, destaca a importância da continuidade das atividades do Museu Emílio Goeldi, preservando sua excelência como instituição científica e patrimônio cultural da Amazônia. Para assinar, acesse o site euconcordo.

 

Texto: Phillippe Sendas e Joice Santos