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A anciã das anciãs

O Museu Goeldi exibe um exemplar histórico de guajará, presente há mais de 150 anos nos terrenos do Parque Zoobotânico. Com muita saúde, o espécime do Goeldi floreia e dá lindos frutos
publicado: 31/10/2016 18h45, última modificação: 15/06/2018 10h40

Agência Museu Goeldi – A coleção patrimonial do Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) foi iniciada no ano de sua inauguração, em 1895, com o propósito de exibir a diversidade natural da Amazônia. Com tanto tempo de existência, seria possível imaginar qual o elemento mais antigo deste imenso jardim?

Engana-se quem pensa que é um monumento histórico, ou até mesmo o Alcino, o jacaré-açu com mais 70 anos. O indivíduo mais longevo do Parque está vivo há mais de um século e meio. E apesar de ser um ancião, ainda tem muita saúde e rende bons frutos. Estamos falando do guajará (Chrysophyllum venezuelanense), a quarta espécie apresentada na série multimídia “As Anciãs do Museu Goeldi”.

O Guajará tem mais de 150 anos no Museu GoeldiO exemplar da espécie presente no Museu Goeldi ultrapassa em idade o prédio mais antigo da instituição, que tem 137 anos. O pavilhão Domingo Soares Ferreira Penna, a Rocinha, é um casarão construído na segunda metade do século XIX que já foi espaço para laboratórios e coleções, e até mesmo moradia para pesquisadores, e atualmente continua em uso como espaço para diversas exposições científicas e artísticas.

 “Quando os terrenos da Rocinha foram adquiridos pelo Governo, em 1895, e disponibilizados para a adaptação do Museu, do zoológico e do horto botânico, já existiam algumas árvores e espécimes na área do antigo dono dos terrenos, o Coronel Bento José da Silva Santos”, disse a museóloga Lilian Flórez, bolsista do Museu Goeldi.

Além das árvores plantadas, muitas espécies nativas faziam parte da paisagem dos terrenos que hoje conformam o Parque Zoobotânico do MPEG, entre elas o guajará, que tinha ampla ocorrência na região. Jacques Huber, o botânico que idealizou o Horto e o Herbário do Museu Goeldi, interessou-se pela planta, a primeira estudada pelo suíço após sua chegada à instituição em 1895.

Ele foi um dos primeiros a caracterizar e identificar a espécie a partir do exemplar encontrado no Parque. Chrysophyllum excelsum Huber foi o nome atribuído pelo naturalista à espécie, porém, esta descrição foi contestada após constatação de um registro anterior na Venezuela. Sendo assim, o verdadeiro nome científico da espécie é Chrysophyllum venezuelanense (Pierre) T.D. Penn.

No Museu Goeldi, a planta embeleza e dá sombra ao ambiente das onças pintadas e à lateral do pavilhão da Rocinha. Alta e majestosa, mantém muita vida em todos os seus estratos.

Baixe para o seu celular e computador a aquarela do guajará feita por Livia Prestes. Basta clicar aqui e aqui. Assista a um vídeo com informações sobre o guajará clicando aqui.

Cuidados  Para atravessar o tempo e chegar a idade provecta de 150 anos vivo e saudável, o guajará mais antigo do Museu Goeldi exige cuidados especializados. O setor Flora do Zoobotânico realiza monitoramento constante da planta, atento a todos os aspectos que ela apresenta. Afinal, o Parque do Goeldi está em uma situação muito diferente daquela do século XIX. O que antes era uma área rural, cercada de mata nativa, hoje é uma pequena mancha verde – a área total do Parque do Goeldi tem 5,4 hectares -que resiste no centro da metrópole, rodeada de prédios altos e vias com tráfego intenso.

A ilustradora Lívia Prestes se inspirou nos detalhes do Guajará para compor esta linda estampaEm 2012, após uma forte chuva com ventania, um dos galhos do guajará despencou no solo do Parque Zoobotânico, sem atingir estruturas ou pessoas. A queda do galho poderia comprometer seu equilíbrio e o Museu Goeldi não estava disposto a perder um exemplar histórico tão significativo. O acompanhamento da árvore foi intensificado e ganhou um reforço extra. O MPEG em parceria com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e com a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) produziu um diagnóstico mais completo da planta - periodicamente a coleção de grandes árvores da instituição passam por exames.

Entre os cuidados adotados para recuperar o guajará, houve a retirada de galhos para reduzir o peso da copa, a remoção da vegetação em excesso no tronco e o reforço da adubação orgânica em volta da árvore.

Situado em um local de intensa visitação, o guajará precisava de proteção para suas raízes. Para evitar o pisoteamento do solo - o que afeta a nutrição da planta - e diminuir a compactação o solo, provocada ao longo do tempo pela movimentação de visitantes no entorno da árvore, a área onde está exposta a raiz do guajará foi isolada. Protegida com a ampliação do guarda-corpo que cerca o recinto das onças, o Guajará recuperou a sua saúde.

Os fãs das onças não aceitaram de bom grado a medida, mas os seres viventes que usufruem do Guajará – onças, insetos, aves, outras plantas e amantes da botânica – com certeza agradecem o cuidado.

No detalhe, a folha e a minúscula flor do guajaráDescrição – A planta é tão grandiosa quanto a baía que margeia a cidade de Belém do Pará e leva o mesmo nome. Ela pode atingir até 40 metros de altura, mas sua delicada flor não mede mais do que 5 milímetros. O fruto, também pequeno, é arredondado, mede de 6 a 8 centímetros e as sementes 2,5 centímetros. “Os frutos têm sabor aproximado ao da sapotilha e do abiu, só que não são tão gostosos quanto o abiu ou a sapotilha”, conta Ricardo Secco, professor dos Programas de Pós-Graduação em Botânica Tropical, Bionorte e Biodiversidade e Evolução, além de ex-curador do Herbário do Museu Goeldi.

Ricardo também aponta os locais de ocorrência da árvore. “O guajará tem uma distribuição muito ampla que vem desde a América Central, alcança a Colômbia, o Peru e adentra na Amazônia brasileira especialmente no Pará, no Amazonas e no Acre, além do Mato Grosso”, explica.

Viva Amazônia – O projeto Viva Amazônia apresenta ao público informações sobre o bioma amazônico e os acervos do MPEG no formato de séries de reportagens multimídia.

A proposta iniciou-se em 2015 com a apresentação do acervo vivo da instituição. Já foram lançadas as séries “Viva a Fauna Livre” e “Aves e Mamíferos”. O material seriado conjuga jornalismo, vídeos, design e interação com o público das mídias sociais. Clique aqui e aqui para ter acesso às reportagens, vídeos, tutoriais e miniaturas das edições “Viva a Fauna Livre” e “Aves e Mamíferos”.

O projeto Viva Amazônia é desenvolvido pela Escola da Biodiversidade Amazônica (Ebio), subprojeto do INCT/Biodiversidade e Uso da Terra na Amazônia, e pelo Laboratório de Comunicação Multimídia (LabCom) do Museu Goeldi.

A série “As Anciãs do Museu Goeldi” conta com a parceria da Coordenação de Museologia do MPEG, através do projeto “A transformação da paisagem do Parque Zoobotânico durante os primeiros 50 anos de existência”, desenvolvido pela Dra. Lilian Flórez, e ainda com a colaboração do setor Flora do Parque Zoobotânico e das coordenações de Botânica e de Informação e Documentação – todos setores do Museu Goeldi.

Venha ao Museu Goeldi e conheça a árvore testemunha da história da instituição. No próximo mês, conheça a castanheira, a árvore ameaçada mais importante do Museu Goeldi.

 

Texto: Mayara Maciel